A Motz, spin-off da Votorantim Cimentos, saltou de 20 mil para 103 mil motoristas cadastrados em menos de dois anos. O crescimento de mais de 400% reflete uma estratégia focada em digitalizar um setor tradicionalmente analógico: o transporte rodoviário de cargas, que representa 66% dos R$ 366 bilhões movimentados anualmente pela logística brasileira. “Eu engajo […]
A Motz, spin-off da Votorantim Cimentos, saltou de 20 mil para 103 mil motoristas cadastrados em menos de dois anos. O crescimento de mais de 400% reflete uma estratégia focada em digitalizar um setor tradicionalmente analógico: o transporte rodoviário de cargas, que representa 66% dos R$ 366 bilhões movimentados anualmente pela logística brasileira.
“Eu engajo muito nosso time dizendo que eles não trabalham numa transportadora tradicional. Nós estamos aqui mudando a prática, tentando criar uma nova prática para esse setor”, afirma Marcelo Boratino Ortega, diretor de tecnologia e produto da Motz, em entrevista ao IT Forum.
O Brasil possui entre 124 mil e 155 mil transportadoras, mas a maior delas representa apenas 1% do mercado. Nesse cenário pulverizado, os motoristas autônomos enfrentam rotinas burocráticas que consomem quase 50% do tempo de trabalho em filas de espera, segundo estudos do setor. “A idade média dos motoristas está crescente e eles não possuem práticas digitais. Em contrapartida, têm uma rotina muito presa a burocracias”, explica Ortega. “Apenas 15% dos motoristas possuem práticas digitais. Os outros 85% ainda operam de forma analógica.”
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Para superar essa resistência, a Motz desenvolveu um ecossistema de benefícios que inclui assistência médica, seguro de vida, desconto em diesel, financiamento de caminhões e facilidades na jornada de trabalho. Um dos casos mais emblemáticos da digitalização implementada pela empresa envolve o uso de IA para automatizar o processo de baixa de fretes. Tradicionalmente, quando um motorista terminava uma viagem, precisava viajar até 100 quilômetros para chegar a postos credenciados e fazer a baixa manual dos documentos para receber o pagamento.
“Colocamos no nosso aplicativo um dispositivo que, no término da viagem, o motorista coloca a nota fiscal no banco do caminhão. Nosso sistema automaticamente faz o foco, lê o documento fiscal, faz a validação da assinatura e depositamos o valor do frete na hora para o motorista”, detalha. A solução não apenas melhora a qualidade de vida dos profissionais, mas também aumenta a eficiência operacional da empresa.
Apesar dos avanços em telecomunicações no Brasil, a Motz ainda enfrenta desafios de conectividade. A empresa opera em regiões remotas de extração de gesso e bases próximas ao agronegócio, onde o sinal celular é limitado. “Motoristas colocam na pesquisa que o mais importante para eles é o sinal, a conectividade. Soluções de internet por satélite estão colaborando muito para as bases que ficam longe, mas acabam sendo caras para o perfil dos motoristas”, reconhece Ortega.
Para mensurar o retorno dos investimentos em tecnologia, a Motz adota um processo rigoroso de aprovação que envolve times multidisciplinares. “Para cada iniciativa, passamos por um processo robusto de aprovação, documentação e discussão de benefícios”, explica o executivo. A empresa também implementou IA para desenvolvimento de software, alcançando 20% de eficiência na produtividade dos desenvolvedores. “Quando você vai desenvolver um código complexo ou fazer manutenção, a IA já faz a leitura e mostra os caminhos. É algo bem cirúrgico”, descreve Ortega.
Nascida para atender à Votorantim Cimentos, a Motz hoje trabalha com mais de 300 clientes. A empresa cresceu 109% em volume no agronegócio em 2024 e expandiu sua atuação para outros setores. “Hoje já temos uma boa parte do nosso share voltada a outros negócios que não sejam da Votorantim. O fato de podermos ajudar o Brasil a escoar todas as safras nos coloca num terreno muito fértil para continuar crescendo”, projeta o executivo.
A experiência da Motz revela que a tecnologia, por si só, não é suficiente. “A tecnologia não é o fim, ela é o meio. Toda jornada que fazemos é em prol do negócio e nasce com uma escuta ativa”, enfatiza Ortega. Para o executivo, o papel do CIO moderno vai além da gestão técnica: “Conhecer com mais afinco o perfil do consumidor na ponta, conhecer de negócios, tem me ajudado muito nesse processo.”
Com 150 bases no Brasil e um modelo 100% em nuvem, a Motz exemplifica como startups nascidas digitais podem transformar setores tradicionais da economia, combinando tecnologia de ponta com profundo entendimento das necessidades dos usuários finais.
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