Acompanho os principais eventos da indústria de informática há pelo menos 5 anos, e por várias vezes assisti shows absolutamente bem produzidos, cheios de artifícios visuais para arrancar dos participantes as maiores emoções. Mas esses shows têm um propósito claro, apresentar tecnologias ou conceitos e obter do restante dos membros da indústria o devido apoio. […]
Acompanho os principais eventos da indústria de informática há pelo menos 5 anos, e por várias vezes assisti shows absolutamente bem produzidos, cheios de artifícios visuais para arrancar dos participantes as maiores emoções. Mas esses shows têm um propósito claro, apresentar tecnologias ou conceitos e obter do restante dos membros da indústria o devido apoio. No fundo, são raros os eventos que apresentam uma mudança significativa na indústria de informática.

O Keynote de abertura estava cheio e foi muito interessante, mas quem esperava lançamentos bombásticos ou novos produtos saiu decepcionado.
O NVISION08 foi ligeiramente diferente, e talvez por isso tão interessante, mas nem todos os analistas compartilharam da mesma opinião. A primeira questão mal resolvida era se o evento é da NVIDIA, como um IDF é para a Intel e um Tech-Ed é da Microsoft, ou se é um evento para o setor de Visual Computing, como o próprio Jen Hsun (CEO da NVIDIA) fez questão de frisar. Em nome de um evento aberto para o setor de Visual Computing, a NVIDIA optou por não fazer anúncios ou lançar produtos de sua marca, o que alguns consideraram decepcionante já que o NVISION é da NVIDIA, como o próprio nome dá a entender. Por outro lado, a participação de centenas de pequenas empresas usando o poder de processamento de uma GPU em suas aplicações “não games” foi pra mim o ponto mais forte, algo que não se vê em qualquer feira.

Conversamos com Jen Hsun após o keynote, e meu amigo Mário Nagano tirou essa foto.
Em um IDF, por exemplo, vemos aquela constante evolução de processadores, chipsets, plataformas e um showcase com várias empresas apresentando soluções com esses produtos. Muito legal em certas ocasiões, mas se torna muito maçante quando de fato vemos que não há grandes revoluções a não ser o gradual e incremental poder de processamento. No NVISION08 foi diferente, lá vimos coisas que antes não eram possíveis de se fazer por falta de um processador capaz. A GPU, através das suas bibliotecas de programação, como o CUDA da NVIDIA, abriu um universo de possibilidades que há muito tempo não víamos nos eventos da Intel, Microsoft e outros tantos do setor. O poder computacional disponível nos processadores paralelos de uma GPU é fenomenal, cabe aos desenvolvedores do setor domá-los através das linguagens de programação mais apropriadas.
Havia, por exemplo, um grupo de sessões técnicas só sobre o setor automobilístico, com apresentações da BMW, Audi, e empresas desenvolvedoras de soluções para o setor. É incrível o benefício que a GPU trouxe para a indústria automotiva que ainda é invisível para a maioria de nós. Por exemplo, a BMW mostrou seu sistema de reconhecimento de movimentos capaz de identificar com antecipação se um objeto qualquer (uma pessoa, outro veículo, etc) está em rota de colisão com o automóvel e tomar decisões antecipadamente para evitar o dano. Esse sistema se baseia em uma análise em tempo real do vídeo produzido pelas câmeras frontais do automóvel que, por variação entre os frames, consegue identificar os vetores de movimento de todos os objetos da cena, e ainda compensar o balanço do próprio automóvel. Grupos de vetores de movimento que apresentam perigo são marcados em vermelho e podem acionar ações reativas no carro conforme a programação escolhida pela BMW. Vimos simulações utilizando o Cruise Control, que não só dosa automaticamente a distância de segurança em relação ao carro da frente como é capaz de ajustar a velocidade do carro de acordo com o fluxo do trânsito.
Além disso, os mais de 100 processadores encontrados em uma BMW Série 7 serão substituídos em breve por uma única GPU capaz de realizar todas as tarefas, desde o sensor de movimentos frontal até o sistema de estacionamento que literalmente coloca o carro na vaga sem a interferência do condutor, apenas analisando as imagens do local. Sabem o que a BMW alega? É mais barato concentrar o processamento em uma única GPU do que administrar em uma linha de montagem mais de 100 sistemas de processamento diferentes e interconectados.

Na Audi, além de sistemas similares ao da BMW, está sendo desenvolvido um painel LCD de 1920 pixels de largura cobrindo todo o painel de instrumentos do automóvel, onde serão exibidos digitalmente os instrumentos tradicionais, o sistema de som touch screen, o GPS, e muito mais. Ou seja, a imagem do painel passa a se adaptar conforme a situação e a necessidade do motorista. Os mostradores de velocidade e RPM podem “se abrir” para que no centro seja apresentada uma informação útil, como um detalhe do mapa do GPS (em 3D) que mereça uma atenção maior, ou uma câmera de ré caso esteja estacionando. O sistema de vídeo frontal é rapaz, por exemplo, de “ler” as placas de trânsito e compreender a velocidade permitida no local. Para isso, a GPU procura em tempo real aquele circulo vermelho com o centro branco e os dígitos indicando a velocidade permitida. Ou então, interpreta as imagens das placas indicando as faixas de saída combinadas com a orientação do GPS. Tudo em tempo real, em 3D, e integrado ao painel do automóvel. A interface desse painel com o usuário é incrível, vimos uma demonstração utilizando Bluetooth de um celular onde as informações (Caller ID, com foto) de quem está ligando aparece no painel, que por um único comando pode atender a chamada, reduzir o volume do rádio, falar em viva voz e desligar a ligação no final da conversa.

Pela primeira vez eu vi resultados práticos e reais sobre o problema das interfaces com os computadores. Imagine se em um automóvel precisássemos lidar com a velha interface do Windows para passar comandos ao veículo? Vi vários projetos de interfaces amigáveis para várias aplicações, inclusive para celulares através do chipset Tegra, da NVIDIA. Se vocês acham que a interface do iPhone é algo fora de série, esperem para ver o Tegra ao vivo. O aparelhinho (sim, havia um protótipo funcionando lá) é facílimo de usar e extremamente intuitivo. No protótipo que tive acesso, havia uma porta HDMI transmitindo a interface e vídeos em alta resolução para uma TV de 50 polegadas com uma ótima qualidade de imagem. Realmente impressionante.

Na área de games nós da imprensa especializada vamos voltar a falar de óculos 3D e games otimizados para 3D que voltam a tona após alguns anos de descaso por causa da tecnologia de LCDs vigente. Infelizmente será necessário utilizar um monitor LCD de 120 Hz (os atuais mais comuns são de 60Hz) porque o novo modelo de óculos 3D é baseado em lentes polarizadas que alternam eletronicamente a visão do usuário, bloqueando cada olho separadamente a uma taxa de 60 Hz cada. Daí a necessidade de 120 Hz no monitor para uma imagem final perfeita. Testei os óculos, comandado por um sensor ligado a uma porta USB, e fiquei muito bem impressionado. Ao contrário dos modelos anteriores baseados em cores azuis e vermelhas, ou em lentes polarizadas passivas, o modelo atual não dá dor de cabeça e permite a visão naturalmente sem perda de foco nas imagens. Os jogos ficam muito mais interessantes mesmo!
Foram 3 dias muito movimentados pela feira, com várias sessões técnicas, vários eventos paralelos como o Summit (novas empresas, novas tecnologias, apresentando seus produtos e buscando investidores) e palestras de todo tipo, desde um chato documentário realizado dentro do Second Life, narrado pelo próprio autor, ao vivo, até animadíssimas partidas de games, records mundiais batidos, shows com celebridades, onde destaco o filme em animação 3D (com os óculos, claro) “Fly Me to the Moon” apresentado pelo Buzz Aldrin em pessoa (ele faz a sua própria voz no filme) e a animadíssima apresentação dos MythBusters (Caçadores de Mitos) com Adam Savage e Jamie Hyneman em pessoa. Pena que a Kari Byron não foi…

O Show dos caçadores de mitos foi simplesmente fantástico. Primeiro eles apresentaram um processador “Pentium” pintando uma figura, uma carinha em azul, de forma seqüencial usando uma pistola de paintball. O robô por controle remoto entrou no palco e começou a dar tiros com a pistola formando a figura, algo lento, chato e pouco emocionante. Depois o palco se abriu, as cortinas foram levantadas e lá trás estava “Leonardo” uma super máquina de paintball composta de 128 canhões pressurizados que pintaria a Mona Lisa em um único tiro, representando o poder de processamento paralelo de uma GPU.Todos das primeiras fileiras (eu estava na primeira fila) tivemos que se cobrir com plásticos fornecidos pelo Adam, pois segundo eles a máquina não havia sido testada e pela pressão provavelmente iria respingar tinta bem longe (de fato, a impecável camisa branca de Jamie ficou suja de tinta).


E de uma tacada só, com um único tiro, a Mona Lisa apareceu no painel. Há um vídeo no Youtube com os melhores momentos dessa apresentação, incluindo a impressionante cena em câmera lenta mostrando as 128 bolinhas em direção ao alvo. Foi um verdadeiro show e a animação da dupla foi contagiante. Tive a chance de conhecê-los pessoalmente nos bastidores após o evento e a euforia era visível, Adam levou os filhos para assistir e estava vibrando com as crianças pelo feito. Esses dois são muito simpáticos e acessíveis, como todos na NVIDIA.
Enfim, o NVISION08 foi um show e a tivemos acesso a uma grande quantidade de informações, com demos, projetos, aplicações reais, e tudo mais que possa incluir uma GPU no mundo atual, não necessariamente em um PC. É claro que se falou do Larrabee da Intel, como também se falou da GPU da ATI, e cada uma dessas soluções tem vantagens e desvantagens. O que eu não tenho dúvidas é que a NVIDIA está em uma liderança folgada, não só em produtos e aplicativos (devido ao CUDA), mas sobretudo devido ao apoio da indústria de Visual Computing. Vou voltar a esse assunto mais vezes aqui no site, há muito o que falar sobre a GPU e as suas aplicações.