A indústria de informática tem um motor próprio, e esse motor tem dois vetores fundamentais e que determinam a sua evolução. Um dos vetores é o aumento do poder de processamento a cada geração de produtos, sem ele o usuário não se vê motivado a migrar para um novo produto ou a comprar o seu […]
A indústria de informática tem um motor próprio, e esse motor tem dois vetores fundamentais e que determinam a sua evolução. Um dos vetores é o aumento do poder de processamento a cada geração de produtos, sem ele o usuário não se vê motivado a migrar para um novo produto ou a comprar o seu primeiro PC. O segundo vetor é a redução dos preços médios à medida que a evolução da performance avança. Esse vetor é também importante, porque permite que indivíduos menos abastados adquiram seus produtos conscientes (às vezes nem tanto…) de que estão uma ou duas gerações atrasados e, portanto, com uma performance inferior.
Uma derivada desse segundo vetor é a sensação da obsolecência. Aquele super PC que você acabou de comprar por 5 mil reais vale, apenas 6 meses depois, uns 30% a menos e foi ultrapassado em performance por um equipamento até mais barato. Voltamos ao caso do primeiro vetor, que motiva o usuário a buscar um novo equipamento, e assim movemos o motor dessa indústria.
O mercado de softwares, especialmente o de sistemas operacionais e games, também ajuda a mover esse motor. O caso do Windows Vista é bem exemplar, para usá-lo é preciso uma máquina praticamente nova, com o dobro da memória exigida antes. E os últimos lançamentos em Games? Troque a placa de vídeo, meu filho…

O conteúdo digital armazenado em um PC também é um combustível para esse motor. Se nos tempos do modem de linha discada nós usualmente armazenávamos pouco conteúdo multimídia (músicas, filmes, etc) atualmente, com a evolução da banda larga de internet e das câmeras digitais, é fácil encontrar PCs com centenas de gigabytes de filmes, músicas, fotos e outros tipos de conteúdo digital armazenados. É hora de comprar mais um disco rígido, se possível mais rápido que o anterior, e talvez uma caixinha USB para colocar o disco velho como backup.
E o motor dessa indústria continua rodando a pleno vapor, alimentado pela falta de consciência na economia de energia elétrica, pelas ofertas de financiamento para aquisição de produtos, pelos planos de incentivos governamentais à inclusão digital, pela oferta de serviços digitais de banda larga e muitas outras inciativas, mas os dois vetores principais continuam inabalados: a cada geração terei mais poder de processamento, e é cada vez mais barato comprar equipamentos de ponta.
Há quase 10 anos participo desse mercado e sempre que pergunto a um revendedor “como estão as coisas?”, as reclamações são as mesmas:
vendo cada vez mais itens, mas o faturamento é cada vez menor e minhas margens são menores. O que não é uma surpresa, visto que o funcionamento da indústria é assim mesmo e prevê esse efeito nas revendas de informática. Uma conclusão óbvia é que as revendas precisam crescer, serem mais eficientes no processo de venda/cobrança/entrega, e se especializar nos seus respectivos segmentos oferecendo todos os serviços e possibilidades de pagamentos que a indústria dispõe. Lojas genéricas e pequenas tendem a perder muita competitividade e eventualmente falir, ou se transformam em camelôs.
Há alguns anos ouço nos principais eventos do setor a idéia de “buscar o próximo bilhão de usuários” alegando que os atuais 1 bilhão de consumidores de PC não são suficientes para manter o motor da indústria girando e que para isso ocorrer seria necessário investir em novos modos de uso, novos produtos, novos serviços e novas faixas de preço para enfim atingir mais 1 bilhão de “não consumidores” com produtos de informática. Já vimos várias iniciativas nesse sentido, como os HTPC, os Consoles para jogos (que são, na prática, um PC, mas não são vistos como um PC na maioria dos lares), e vários outros dispositivos de informática movido a processadores e chipsets, mas que na minha opinião erraram o alvo porque na prática atingem os mesmos atuais 1 bilhão de usuários que já consomem produtos de informática. É comum vermos hoje nas residências mais de um computador, como na casa de um amigo meu onde ele e cada um dos filhos têm um PC no quarto, há um HTPC e um Console PS3 na sala e ainda dois notebooks na residência (o dele e da esposa). São 7 computadores para uma família de 4 pessoas, mas todas já são usuárias de PC portanto não são parte do “outro 1 bilhão de usuários” que a indústria busca.
Vimos também várias iniciativas como o OLPC (One Laptop per Child) e seus produtos derivados como o Classmate da Intel e outros tantos. Essa iniciativa efetivamente busca os novos potenciais de usuários dentro daquele alvo de “outro 1 bilhão”, mas é uma iniciativa que depende muito mais de ações governamentais e da prestação de serviços diversos do que do hardware em si, ou do preço do equipamento em si que inicialmente eram 100 dólares e agora já passam dos 200 dólares.
Mas o OLPC serviu para abrir os olhos da indústria para um produto inovador, que são os Netbooks , nome dados aos pequenos notebooks baseados em plataformas de baixo custo como o EeePC, o MSI Wind, o Foxconn Qbook e tantos outros. Há uma outra denominação para esses produtos: os tinyPCs (PCs pequenos ou minúsculos). Esses produtos estão começando a preocupar alguns big players dessa indústria, porque vão na contramão dos vetores do “motor que move a indústria” que comentei no início do artigo. Eles oferecem menos performance a um preço muito baixo, mas são proporcionalmente mais caros do que os produtos da geração anterior que oferecem mais performance. Opa! Peraí! O motor passou a rodar prá trás! Alerta! Alerta!

O usuário percebeu que na maioria dos casos ele não precisa de tanto poder de processamento para usufruir dos serviços digitais que ele efetivamente usa. Basta um notebook bem pequeno com uma performance limitada mas muito barato para que ele possa acessar a internet, ver e-mails, consultar sites, ver as fotos que acabou de tirar com sua câmera digital portátil, sincronizar a agenda do celular, ver filmes de baixa resolução ou ouvir músicas na sua biblioteca digital. Esse usuário também percebeu que ele prefere uma tela pequena em um sub-notebook leve e barato do que uma tela grande em um notebook grande e pesado. E nem estou falando da duração da bateria ainda…
Atento a esse mercado, na verdade as portas foram abertas através do OLPC, a Intel lançou o processador Atom. Só pra vocês terem uma idéia da performance, um Atom 1.6 GHz Dual Core é muito próximo de um Core Duo (da primeira geração, que por sinal eu uso no meu notebook) também de 1.6 GHz, só que consome apenas 2 watts, contra mais de 25W do segundo. Talvez não sirva para o Windows Vista (e daí?), talvez não sirva nem para jogar e nem para usar o Photoshop em sua plenitude já que o espaço de memória e de armazenamento é sempre limitado, ou ainda assistir um vídeo de alta definição (mas se a tela é pequena, tanto faz, não é mesmo?), mas para o resto ele serve muito bem. Eu tive a chance de usar o MSI Wind na Computex esse ano e gostei muito do desempenho dele com Windows XP.
Quanto custa um Atom? Antes, vamos entender o seu tamanho e a sua produtividade por wafer, pois é aí que o custo aparece. Acho que as imagens abaixo mostram bem o que eu quero dizer. Um wafer de Core2Duo de 45 nanômetros produz cerca de 650 unidades no total, e dada a sua complexidade de construção acredita-se que parte deles estão defeituosos e serão descartados. No caso do Atom, são cerca de 2500 unidades por wafer e como são mais simples, a maioria está em perfeitas condições de uso. O custo de um wafer de 300mm no processo de 45 nanômetros é praticamente o mesmo, não importa qual processador esteja sendo feito. É por isso que uma CPU Atom pode ser vendido a 29 dólares e ainda dar um bom lucro percentual.

Acima um wafer de 300mm com Core2Duo em 45 nanômetros. Cerca de 650 unidades são obtidas nessa “bolacha” de silício. Abaixo uma amostra do Atom no mesmo wafer e no mesmo processo Estima-se que 2500 unidades são obtidas.

Mas há um problema aí. As margens de lucro são calculadas em valor percentual, seja da Intel, seja da HP que montou o notebook, ou seja do revendedor que o vendeu ao consumidor. E quanto menor o valor absoluto, mesmo se mantendo um bom percentual de margem, menor é a margem em unidades monetárias (dólares no bolso). Se um notebook médio dá 200 dólares de margem ao revendedor (é apenas uma hipótese…), para conseguir os mesmos 200 dólares vendendo um MSI Wind
A indústria de notebooks e seus principais players ganham dinheiro vendendo notebooks de boa performance entre 1000 e 2000 dólares. As margens disponíveis em cada camada (layer) da cadeia de vendas permitem a operação saudável desde o fabricante (Intel), o montador (MSI, Asus, HP, DELL, etc), do distribuidor regional e do revendedor (a sua loja de preferência). No momento que o valor absoluto da operação cai 75%, como ficam as margens absolutas dessa cadeia? O motor não pode andar pra trás porque quebra todo mundo.
O Atom para PC ainda usa uma plataforma (chipset) velha e não otimizada para o consumo elétrico, e isso em breve será resolvido e deve reduzir ainda mais o preço e aumentar o desejo por esses produtos, piorando ainda mais a situação para quem vende esses netbooks .
Ultimamente vários analistas estão escrevendo sobre esse problema, e a indústria está preocupada pois ninguém imaginou que o próximo 1 bilhão de usuários seriam basicamente os mesmos que já compram, só que agora comprando menos e mais barato. A Intel divulgou, não oficialmente, que a lucratividade do Atom é 10% menor (em percentual) do que a do Core2Duo, na outra ponta estão os Quadcores com 10% a mais de margem que o C2D. Supondo que a margem média da Intel é de 60% (isso está no relatório financeiro divulgado recentemente) estima-se que a margem bruta do Atom é de 50%, do C2D é de 60% e do Quadcore é de 70%. Mas qual é o real faturamento nessas três linhas de produto? Ganhar 14 dólares na venda de um Atom é suficiente para a Intel? Um QuadCore gera 10 vezes mais dólares de margem que um Atom…
Esse desaparecimento de dólares vem em efeito cascata até o revendedor. E quem faturava 1000 para lucrar 200 vai ter que faturar 4000 para ganhar os mesmos 200. Antes que alguém diga que quem ganha é o consumidor quero deixar claro aqui que isso não existe. O consumidor nunca ganha nada na indústria de informática, o que ocorre é uma relação de trocas, se o consumidor paga pouco, recebe pouco e o setor evolui pouco e a médio prazo todos perdem, é assim que essa indústria funciona e só ocorre um reajuste quando algo absolutamente inovador é lançado, mudando completamente o modelo de negócios do setor. A idéia de um outro “1 bilhão de usuários” é quase uma utopia, na prática sempre haverá uma migração do primeiro grupo resultando em 2 bilhões de usuários provavelmente gastando menos do que o atual “1 bilhão”.

A idéia original aqui era mostrar o tamanho do Atom ao lado de uma moeda de 1 centavo, mas serve para ilustrar o valor da margem do segmento…
Portanto, embora seja possível vender um Netbook básico por 200 dólares, nós vamos ver cada vez mais modelos mais completos de 400 a 500 dólares a venda, provavelmente usando Windows XP, ou alguém acha que a indústria de softwares comerciais vai abrir mão de uma parte desse mercado? Haverá uma escassez artificial de Atoms e de suas plataformas (algo que já está acontecendo, basta ficar atentos às notícias) como uma forma de dosar o volume de produtos de baixo custo no mercado até que se encontre um equilíbrio financeiro, e provavelmente os “full notebooks” vão cair de preços para diminuir a atratividade dos Netbooks, mas ainda oferecendo mais performance por dólar. Essas tendências são naturais, afinal o motor precisa continuar a girar pra frente…nem que seja mais devagar…
PS. Vi aqui no Brasil vários revendedores tentando vender o Eee PC por um valor próximo ao de um notebook básico fabricado no Brasil.