Do outro lado de quem faz campanha para a morte do navegador estão empresas presas a um cenário interno que não mudou nestes oito anos
Parece que o Internet Explorer 6 não tem fãs no mercado. Nem mesmo sua fabricante, a Microsoft, dá sinais que pretende manter o produto ainda vivo. A empresa divulgou no fim de agosto que irá aumentar suas doações ao Feeding America cada vez que alguém atualizar o software para a versão 8 no portal Browser for Better. Inicialmente, a empresa doaria oito refeições para famílias carentes. Mas o novo plano prevê 16 pratos de comida para cada eliminação do IE6.
A iniciativa, mais de marketing do que qualquer outra coisa, mostra bem o drama pelo qual vive a Microsoft. Há cerca de três meses, a empresa, pressionada por desenvolvedores de aplicativos corporativos e webdesigners que queriam o fim do navegador, emitiu um comunicado oficial esclarecendo que iria manter o suporte técnico ao IE6 até 2014.
Vários executivos da companhia se apressaram a dar entrevistas dizendo que esta determinação não tinha nada a ver com a política de inovação da empresa. O problema é que o IE6 ainda é usado por muitas empresas e a decisão de deixá-lo é uma estratégia individual e atrelada aos planos de investimento corporativos. Mesmo assim, dentro da própria Microsoft o upgrade é estimulado. O gerente-geral para este produto, Amy Barzdukas, chegou a afirmar recentemente: “não deixem seus amigos usarem o IE6”.
No entanto, pesquisas de mercado mostram que o IE6 ainda é usado por algo entre 25% e 30% dos usuários. O navegador, lançado em 2001, é parte integrante do Windows XP. Como o sistema operacional obteve muito sucesso no seu lançamento, muitos aplicativos internos das empresas foram desenhados para ele. O fracasso de vendas do Vista contribuiu para que o cenário se mantivesse estagnado. E, embora a internet tenha evoluído muito nestes oito anos, a modernização das infraestruturas corporativas permaneceu no paradigma do IE6.
O problema não é tão fácil de ser resolvido. “Não é somente uma opção técnica, esses sistemas não são fáceis de serem atualizados, porque envolve decisões financeiras de longo prazo”, explica o gerente de pesquisa e desenvolvimento da Softplan, Marcos Florão. Mudar para o IE8 simplesmente faria muitos aplicativos internos não funcionarem, obrigando uma modernização muito mais ampla.
A desenvolvedora de software de Santa Catarina chegou a discutir sobre o encerramento do suporte ao IE6, mas a iniciativa foi abandonada diante do cenário atual. Cerca de 15% das máquinas de todos os clientes ainda rodam o software de 2001.”O browser é só uma peça num contexto maior da infraestrutura de TI e qualquer mudança gera custo e tempo de homologação em cada aplicativo interno”, aponta Florão.
Entre a morte e teimosia dos dois lados, o IE6 pode virar um zumbi digital. Um software que, embora morto para muitos, irá pairar pelo mundo durante anos. Do lado dos que querem a eliminar o navegador antigo está uma união de quem cuida de desenvolvimento de aplicativos e design. (Leia a primeira reportagem da série). Do outro, há empresas que teriam custos imediatos na modernização e preferem adiar a morte do IE6 ao máximo.
O dilema do IE6 aparece em duas pesquisas distintas. Um estudo da Net Applications mostra que a Microsoft perdeu 8,6% mercado no último ano em termos de navegadores para os concorrentes Google Chrome, Opera, Firefox e Safari. Todas as versões antigas do Internet Explorer deixaram de serem usadas. Somente o IE8 aumentou de participação, com mais 2,8%. O IE sucumbiu em 2,4%. Por outro lado, uma pesquisa do site Digg constatou que 17% dos usuários do IE6 não sentem necessidade de atualizar seus navegadores.
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Esta é a segunda de uma série de reportagens que o IT Web publica sobre o futuro do Internet Explorer 6. Confira o especial completo