Por Fabiano Assis Há muito se fala que uma imagem equivale a mil palavras, mas quando falamos de uma campanha, uma ação ou uma iniciativa? Seria o mesmo que mostrar mil imagens ao público? Semioticistas, neurologistas e profissionais do marketing tendem a divergir nesse ponto, mas concordam em aspecto comum: transmitir emoções e valores a […]
Por Fabiano Assis
Há muito se fala que uma imagem equivale a mil palavras, mas quando falamos de uma campanha, uma ação ou uma iniciativa? Seria o mesmo que mostrar mil imagens ao público? Semioticistas, neurologistas e profissionais do marketing tendem a divergir nesse ponto, mas concordam em aspecto comum: transmitir emoções e valores a partir de objetos, ações e iniciativas é uma das formas mais eficazes de transmitir uma mensagem e, por seguinte, cristalizar princípios para o público.
Quem não se lembra das propagandas dos anos 90 que, sem grandes recursos tecnológicos, se mantêm frescas na nossa memória? Ou ainda, do lançamento do primeiro Iphone em 2007? A primeira busca no Google, ou quem sabe, até o primeiro salário que caiu via PIX? Esses e outros produtos, serviços e experiências não são lembrados (apenas) pelo bem que fizeram à humanidade, mas sim por terem rompido paradigmas então sustentados por limitações técnicas, sociais, e, sobretudo, outras visões de mundo; revelando, assim, uma nova forma de pensar, consumir e se conectar.
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Vivemos um tempo de dissonância cognitiva. A busca incessante por produtividade, velocidade e eficiência técnica nem sempre caminha na mesma direção do propósito e da experiência humana. Se, por um lado, organizações estão cada vez mais automatizadas e orientadas por dados a atingir melhores respostas de consumidores; por outro, pessoas em busca de significado, pertencimento e confiança de marcas.
O último levantamento “Voz do Consumidor, da PwC ilustra bem esse dilema. Enquanto as empresas apostam fortemente em inteligência artificial para otimizar processos e aumentar a eficiência, 80% dos consumidores demonstram receio com a IA, o principal deles? A desumanização de experiências e serviços e, principalmente, o risco de terem os dados apropriados por ferramentas generativas. Em outras palavras: a técnica avança, mas o sentido se perde.
Reconhecer essa “dinâmica inconsciente” dentro de empresas é o primeiro passo para corrigir a rota e trilhar um caminho conjunto com o consumidor. Certamente, a empreitada não será fácil. Mais do que seguir uma fórmula para “cativar empresas e conectar públicos”, o mindset por trás de um caso de sucesso está em imprimir autenticidade e inovação, de forma a transmitir os valores empresariais e, mais importante, demonstrar os benefícios de determinado produto ou serviço. E, talvez, um dos grandes exemplos para ajuste de curso venha de um case improvável, a cultura do código aberto.
Agora, se é desafiador se destacar no varejo, nas telecomunicações (telco) e no setor tecnológico, imagine se tornar uma referência entre programadores, desenvolvedores de software e empresas e, ainda sim, ser praticamente “invisível” para o grande público. Esse é o papel do open source (código aberto): o elo silencioso que conecta técnicos, negócios e usuários ao redor do mundo, impulsionando uma revolução colaborativa, organizada e segura há mais de 40 anos.
Sem campanhas publicitárias, slogans ou influenciadores, o modelo de código aberto sustenta praticamente tudo o que usamos hoje: celulares, sistemas operacionais, servidores, automóveis e até o PIX. O seu segredo? Baixo custo de implementação, alta escalabilidade e segurança comprovada, fruto da revisão constante por especialistas (afinal, milhares de pares de olhos estão examinando cada projeto).
O histórico de sucesso da “marca” open source foi construído indiretamente, a partir do êxito de outras iniciativas: sistemas operacionais mais robustos, smartphones mais seguros e customizáveis e, principalmente, um arcabouço de tecnologias ao alcance de qualquer empresa, usuário e instituição. Olhando em retrospectiva, o triunfo do código aberto revela um princípio universal: não é a tecnologia que se liga às pessoas, mas a cultura que a sustenta. E isso vale tanto para programadores quanto para marcas: um ecossistema baseado em colaboração, confiança e propósito é o que diferencia organizações que apenas vendem daquelas que realmente inspiram, dialogam e se conectam com o público.
O mesmo pode ser dito a respeito dos pilares da liderança moderna: a colaboração não é uma ferramenta importante para apenas mobilizar equipes e alavancar a produtividade, como também é uma forma de inspirar os demais a darem o seu melhor. Seja nas comunidades de código aberto ou, dentro de um ambiente corporativo, o papel de um bom líder é saber conduzir diferentes áreas, perfis e indivíduos de forma coerente e coordenada. Em outras palavras, a liderança do futuro não será formada por gestores que tenham capacidade de centralizar decisões, mas sim por aqueles que estão dispostos a descentralizar o poder organizacional e construir ambientes de confiança, nos quais é possível promover a autonomia, credibilidade e aprendizado contínuo.
Não à toa, empresas que “abrem o código” de sua cultura, permitindo que as ideias circulem, que erros sejam compartilhados e que o conhecimento se multiplique entre setores, parceiros e colaboradores, propiciam um espaço fértil para a inovação e o engajamento genuíno dentro e fora do contexto corporativo. Em outras palavras, ao “abrir o código” de suas organizações, gestores permitem que novas ideias frutifiquem de forma orgânica e espontânea, traduzindo a sinceridade, a essência, a honestidade dos valores corporativos para parceiros, clientes e o público geral.
Sem dúvida, o código aberto é um caso singular a quando falamos sobre posicionamento de marca e construção de um branding efetivo; em tempo, seu sucesso cabe a reflexão: se uma metodologia cooperativa, organizada por pessoas de todas as idades e formada por profissionais com diferentes graus de conhecimento e comprometimento, conseguiu se tornar uma unanimidade no mercado tecnológico global, o que falta para a minha empresa dar o próximo passo e “abrir o código”?
Obviamente, nem todas as empresas podem esperar 40 anos para atingir esse patamar, mas todos podem aprender uma valiosa lição, de estagiários a C-Levels: para construir uma marca longeva, o primeiro passo é fixar valores, cultivar uma cultura condizente com os fluxos de trabalho e forjar uma comunidade apaixonada pelo que faz. É como se costuma dizer, os melhores cases de negócio são os embaixadores de marca: nossos clientes, colaboradores e parceiros.
No entanto, “abrir o código” é mais do que simplesmente revisitar processos internos e estabelecer algumas prerrogativas para gerentes e lideranças, trata-se, primeiro, de instaurar uma cultura centrada na colaboração, confiança e no exemplo. Quando construímos uma ponte entre valores, pessoas e clientes, estruturamos algo mais poderoso do que um canal lógico para nossas mensagens, produtos e serviços, consolidamos um percurso de mão dupla, no qual todos os participantes podem contribuir com a montagem desse monumento coletivo.
Afinal, nesses 40 anos de open source, o maior trunfo da metodologia aberta não foi criar um mundo perfeito e imutável, mas sim convidar a todos para desenvolver um ambiente livre das amarras de tempo e espaço e que tenha como norte uma utopia bem clara: estar buscar a melhor versão de nós mesmos, de forma colaborativa, integrada e coletiva.
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