Base da captação e transmissão dos jogos e essencial para turistas e jornalistas, a infraestrutura tecnológica não entrou na pauta
Os preparativos para a Copa do Mundo
de 2014, que será realizada no Brasil, já começaram. Espalhados nas 12
cidades-sede, os comitês organizadores colocam no papel sua seleção de ideias
para apoiar a realização e a transmissão deste espetáculo. Mas, na disputa por
espaço nas discussões para angariar investimentos para os projetos, os setores
de tecnologia da informação e telecomunicações estão perdendo de goleada para
outras verticais da economia.
Atualmente, é muito mais fácil ver
os esforços (e as cifras) já definidos sobre as reformas aeroportuárias,
hoteleiras e de saneamento básico do que como será trafegado o volume imenso de
dados de um evento que tem tudo para ser um marco na história brasileira da
digitalização das comunicações. No Ministério das Comunicações, há uma
avaliação em andamento numa comissão especial, vinculada ao Ministério dos
Esportes. Mas ainda não existe cronograma montado, nem previsão de finalização
deste primeiro parecer. Somente a partir do resultado do trabalho inicial será
elaborado todo o plano de para o evento.
Para muitos, a discussão deveria
estar mais avançada, uma vez que a Copa coloca em jogo mais do que grandes
times nacionais em
disputas acirradas. Ser palco de um evento desta proporção é
a chance do País avançar décadas de desenvolvimento em somente alguns anos.
Para se ter uma idéia, em São Paulo os investimentos de R$ 32 bilhões previstos
vão renovar várias infraestruturas, de turismo à energia, que estavam previstas
para serem feitas até 2020, mas que em virtude da Copa
serão adiantadas. Contudo, não há nada definido em termos de TI e telecom.
Outras cidades, menos abastecida com
redes do que o eixo Sul-Sudeste, já tocaram a bola pra frente com seus comitês
locais tendo grupos específicos de tecnologia. Em Fortaleza, o Estádio
Governador Plácido Castelo, o Castelão, será cercado com um anel de fibra
óptica e abrigará um moderno data center. Tudo preparado para trafegar imagens
de alta definição (HDTV), uma das exigências da FIFA, a velocidades que variam
de 1Gb a 10Gb. Os trabalhos já iniciaram e devem estar prontos ainda em 2010.
O projeto local da Copa 2014 servirá
de base para a cidade entrar definitivamente na economia digital. “Toda a
região metropolitana terá fibra óptica e isso irá impulsionar a inclusão e os
projetos estaduais que envolvem Internet e telefonia”, explica o presidente da Empresa
de Tecnologia da Informação do Ceará (Etice), Fernando Carvalho.
Para se preparar, a capital cearense
segue um documento da FIFA, onde somente algumas recomendações são detalhadas.
Há exigências irrevogáveis como a capacidade de lidar com HDTV, uso tecnologias
que não sejam proprietárias e do protocolo IP. Mas não há nada que impeça os
governos locais de escolherem o fornecedor adequado. Os contratos são feitos
por meio de parcerias público-privadas (PPP) ou pela Lei 8.666, que rege as
licitações públicas.
A Copa da convergência
A sede que não modernizar a infraestrutura de TI e telecom
corre o risco de ter a imagem desgastada frente à bilhões de pessoas. As
cidades da Copa da África do Sul preveem receber em média 3 milhões de turistas
e centenas de equipes de jornalistas. Todos portando gadgets modernos e
com capacidade imensa de produzir imagens e vídeos digitais que serão enviados
para todos os lugares do mundo por redes de telefonia fixa, celular e outras
formas de transmissão.
Sem o serviço adequado, o colapso nas comunicações é
inevitável. “E estes profissionais de mídia são grandes consumidores de banda”,
lembra o gerente-geral da Telium, Fábio Ferragi. A empresa é responsável pelo
site www.copa2014.org.br, criado
especialmente para a Copa em parceria com o Sinaenco (Sindicato Nacional da
Arquitetura e Engenharia). Com clientes de TV e rádio na carteira, o executivo
da Telium é enfático: “sem TI e telecomunicações não tem Copa”. Segundo ele,
provavelmente veremos o evento marcado pela convergência digital. “Hoje, apenas
discutimos a importância que tem as tecnologias digitais no dia-a-dia da mídia.
Na Copa, isto estará na nossa frente”, diz.
Vitrine para o mundo
Um dos grandes defensores da ampliação da infraestrutura de
comunicação digital no Brasil, o presidente da Associação Brasileira das
Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), Antonio Gil,
defende que as discussões sobre as tecnologias para a Copa de 2014 gerem planos
de longo prazo para o País. “O Brasil só será a quinta maior economia do mundo
em dez anos, como diz o presidente Lula, se investir a partir de agora”, ressalta
Gil. E o maior evento do futebol mundial pode ajudar nisto, acelerando projetos
e trazendo capital.
Mas a entidade também não iniciou qualquer ação específica
ou aproximação com o poder público para participar das decisões sobre onde e
como investir na infraestrutura de TI e telecom para a Copa. “Levamos
constantemente nossos planos gerais sobre o País para ministros e o presidente,
mas nada houve sobre a Copa de 2014”,
aponta Gil. No entanto, ele diz que a Brasscom deve se dedicar mais a esse
assunto ainda em 2009. Até porque, com a liberdade de escolha que as sedes
podem ter sobre fornecedores, o evento é uma grande oportunidade de o setor se
mostrar para o mundo.
E o primeiro grande desafio a enfrentar é evitar a firula
que governantes fazem com investimentos desse tipo. “Muitos políticos não
gostam de falar sobre investimentos em tecnologia, porque eles não aparecem
para o eleitor, diferentemente da construção de um estádio”, argumenta Gil. Esta
visão sobre TI e telecomunicações precisa mudar. O Brasil tem de provar que
pode suportar uma Copa do Mundo antes do pontapé inicial do jogo de abertura. A
FIFA realiza, no País escolhido para o campeonato mundial, a Copa das
Confederações. O torneio, de menor proporção, ocorre dois anos antes. É um
teste, e, por isso, este é o prazo final para muitas obras. Ou seja, em termos
de infraestrutura, o Brasil tem pouco mais de dois anos para se preparar.
Se a “pátria de chuteiras” quer ser reconhecida também pela
eficiência tecnológica, é bom o setor de TI e telecom não chutar de bico essa
oportunidade pra fora. Afinal de contas, ganhe ou perca, seremos um País com
cerca de 200 milhões de técnicos de futebol em 2014. E, quase todos, com
celulares e computadores querendo acompanhar o evento máximo da maior paixão
nacional.
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Esta é a primeira reportagem da série especial sobre como o Brasil está se
preparando do ponto de vista de TI e telecom para a Copa 2014.