Paula Bellizia era o tipo de criança que gravitava naturalmente ao redor das conversas dos adultos. Curiosa por natureza, absorvia discussões sobre política, líderes, esportes, futuro… assuntos que despertavam sua imaginação mesmo quando ainda não os compreendia completamente. Fazia perguntas sem filtro, movida por uma sede genuína de entender o mundo. Décadas depois, ela descobriria […]
Paula Bellizia era o tipo de criança que gravitava naturalmente ao redor das conversas dos adultos. Curiosa por natureza, absorvia discussões sobre política, líderes, esportes, futuro… assuntos que despertavam sua imaginação mesmo quando ainda não os compreendia completamente. Fazia perguntas sem filtro, movida por uma sede genuína de entender o mundo. Décadas depois, ela descobriria que aquela curiosidade insaciável tinha nome na Amazon: “Learn and Be Curious”, um dos princípios de liderança da empresa onde hoje comanda as operações da Amazon Web Services (AWS) na América Latina.
No início dos anos 1990, quando a internet ainda era uma promessa distante, Paula teve um “insight”. Observando o crescimento das empresas de tecnologia, decidiu que queria fazer parte daquilo. Não exatamente por paixão romântica, mas por pragmatismo. “Pensava em atuar em um mercado que me proporcionasse uma carreira”, admite com a franqueza de quem não precisa romantizar suas escolhas.
A decisão a levou para o curso de Processamento de Dados na Fatec. Ali, entre códigos e algoritmos, encontrou mais do que uma profissão, descobriu uma vocação. “Quanto mais eu me apaixonava por tecnologia, melhor fazia o meu trabalho e mais pessoas eu influenciava.”
Paula desenvolveu ao longo da carreira uma compulsão peculiar: sempre queria estar no “olho do furacão”. Enquanto outros profissionais buscavam estabilidade, ela procurava turbulência. Novos projetos, mudanças organizacionais, mercados inexplorados, Paula estava sempre de mão erguida para os desafios que outros evitavam.
“Eu corria o risco mesmo sabendo que não estava 100% pronta”, conta. A estratégia funcionou. Passou por gigantes como Microsoft, onde se tornou a primeira mulher a liderar a operação brasileira, depois Google, Facebook, EBANX. Sempre em cadeiras que exigiam coragem para navegar no desconhecido.
O “não” sempre funcionou como combustível. “Os desafios que encontrei e as negativas que ouvi para algumas posições funcionaram como uma injeção de energia, para provar para mim mesma que eu seria capaz.”
Mas nem tudo foi sobre carreira. Paula casou, teve filhos, construiu uma trajetória internacional – e descobriu que não é possível ter tudo sem fazer escolhas dolorosas. Em determinado momento, teve de decidir entre uma oportunidade no exterior ou permanecer no Brasil. Escolheu a família.
“Temos de renunciar várias coisas, e fazer escolhas. Conciliar todos os papéis é um grande desafio”, reconhece, sem dramatizar. É uma executiva que fala de trade-offs pessoais com a mesma objetividade com que analisa estratégias de mercado.
Foi uma dessas escolhas que mudou o rumo de sua carreira, mas também consolidou algo importante: a certeza de que liderança não é apenas sobre subir na hierarquia, mas sobre fazer escolhas conscientes que alinhem propósito e vida.
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Hoje, no comando da AWS na América Latina, Paula enfrenta um paradoxo da era digital: as máquinas estão aprendendo a ser preconceituosas. Um estudo da Universidade de Berkeley analisou 133 sistemas de inteligência artificial (IA) e descobriu que 44% apresentavam viés de gênero e 25% tinham viés racial.
O problema, explica Paula, está na origem: 70% dos profissionais que desenvolvem IA são homens. “Estamos vendo a IA reproduzir aquilo que ‘aprende’ com quem está por trás de sua programação.”
Para ela, essa é uma questão urgente. “É urgente que as mulheres e outras maiorias minorizadas façam parte do desenvolvimento de novas tecnologias, ou elas irão refletir os preconceitos presentes em nossa sociedade.”
Na AWS, Paula lidera uma operação que já capacitou mais de 800 mil brasileiros em habilidades digitais. O trabalho tem algo de missionário e ela genuinamente acredita que está democratizando o acesso à tecnologia.
“A IA vai transformar praticamente todas as experiências do cliente, e isso está acontecendo muito rápido”, observa. Para Paula, não se trata de uma revolução distante, mas de uma ferramenta que precisa chegar a todos os cantos da América Latina.
Seus conselhos para jovens profissionais carregam a sabedoria de quem navegou décadas em um setor volátil: “Acredite em você. Pergunte, peça ajuda, busque aliados, peça feedbacks para acelerar seu desenvolvimento. Corra riscos calculados.” E, principalmente: “Não pare nunca de aprender. Achar que sabe tudo é uma armadilha para qualquer profissional.”
Paula não se considera pioneira, tampouco heroína. Mas inspira. “Temos hoje grandes exemplos de mulheres líderes no mercado de tecnologia brasileiro, mas sem vigilância e mobilização, qualquer avanço vira retrocesso num piscar de olhos.”
Aos 50 e poucos anos, Paula Bellizia se tornou uma das executivas mais influentes da tecnologia latino-americana. Chegou lá fazendo as perguntas inconvenientes da infância, correndo riscos calculados e mantendo a curiosidade que um dia incomodava os adultos.
“A inovação, as boas ideias e as soluções mais criativas sempre vêm da diferença”, afirma. Ela transformou sua inquietação natural em estratégia de liderança, e agora quer garantir que as próximas gerações de tecnólogos tenham a diversidade necessária para criar um futuro menos enviesado.
Questionada sobre o que mais a motiva hoje, Paula não hesita. “Ajudar a aumentar a diversidade e a inclusão na nossa indústria.” É o mesmo impulso de transformação que a levou da menina curiosa à líder que democratiza o acesso à inteligência artificial.
E, para ela, essa missão está apenas começando. “Gosto de falar sobre isso e compartilhar minha história para inspirar outras mulheres, para contribuir com essa evolução.”
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