Em julho de 2024, Paula Harraca fez história ao assumir a CEO da Ânima Educação. Pela primeira vez desde a fundação da companhia, uma mulher ocuparia o cargo máximo – e mais do que isso, seria também a primeira pessoa de fora do círculo de fundadores a chegar ao topo de um dos maiores ecossistemas […]
Em julho de 2024, Paula Harraca fez história ao assumir a CEO da Ânima Educação. Pela primeira vez desde a fundação da companhia, uma mulher ocuparia o cargo máximo – e mais do que isso, seria também a primeira pessoa de fora do círculo de fundadores a chegar ao topo de um dos maiores ecossistemas de ensino superior do país.
A nomeação representava algo maior do que uma simples mudança na estrutura corporativa. Paula carregava consigo mais de duas décadas de experiência internacional e uma trajetória única: havia começado a carreira como a única mulher entre 500 homens numa siderúrgica argentina. Agora, essa mesma executiva assumiria a responsabilidade de liderar 18 instituições e mais de 350 mil estudantes.
“Nasci numa família simples, mas profundamente rica de valores”, conta Paula, relembrando os tempos de menina em Rosário, na Argentina. A mãe, professora universitária por mais de 50 anos, transformara cada canto em uma pequena biblioteca. “A educação sempre foi o maior bem que tivemos. Cresci vendo o poder da palavra, da escuta, do conhecimento.”
Mas o caminho até a educação não foi linear. Aos 20 e poucos anos, Paula se encontrou como trainee numa empresa de aço, enfrentando olhares curiosos e, às vezes, céticos. Era 1995, e mulheres em chão de fábrica eram raridade. “Foi ali que aprendi que ser diferente não é um problema – é uma oportunidade”, reflete.
O que poderia ter sido intimidante virou combustível. Paula não apenas permaneceu na ArcelorMittal por mais de 20 anos, como construiu uma carreira internacional que a levou por Argentina, Brasil, Canadá, Luxemburgo, Espanha e Trinidad & Tobago. Em cada país, em cada função, carregava a mesma marca: primeira mulher no cargo, mas nunca a última a chegar.
Entre a faculdade de engenharia e os primeiros empregos, Paula integrou a seleção argentina de hóquei na grama. Eram tardes inteiras de treino, fins de semana dedicados a competições, madrugadas acordando para viagens. “O esporte me ensinou, com muita intensidade, sobre disciplina, escuta, espírito de equipe e resiliência”, lembra.
As lesões acabaram forçando uma escolha: continuar no esporte ou apostar na carreira corporativa. Paula escolheu os escritórios, mas levou da quadra algo que nenhum MBA ensina: a capacidade de liderar pelo exemplo e de transformar derrotas em aprendizado. “As vitórias e derrotas em campo me prepararam para os desafios da vida real.”
Na ArcelorMittal, essa mentalidade de atleta se traduziu em resultados. Paula especializou-se em gestão de pessoas, inovação e transformação cultural, chegando ao cargo de chief future officer. Foi ela quem idealizou o Açolab, o primeiro hub de inovação aberta do setor de aço no mundo – uma iniciativa que conectava a tradição centenária da metalurgia com as possibilidades infinitas da tecnologia.
Em 2019, um convite mudou tudo. A Una, instituição mineira que fazia parte do grupo Ânima, precisava de alguém no conselho consultivo para aproximar o mundo acadêmico do corporativo. Paula aceitou, sem saber que estava dando o primeiro passo rumo ao que considera “o trabalho da minha vida”.
“Foi um convite que chegou no tempo certo e do jeito certo”, recorda. Durante quatro anos, Paula observou de perto a operação da Ânima, entendeu suas peculiaridades, conheceu seus desafios. Em 2023, foi convidada para o conselho de administração. Meses depois, os fundadores Marcelo Battistella Bueno e Daniel Castanho fizeram a pergunta que mudaria sua trajetória: “Você toparia liderar a Ânima?”
O processo de transição durou quase um ano. Não foi pressa, foi preparação. Paula passou meses ouvindo, observando, aprendendo. “Eu já conhecia a Ânima de perto e já admirava a companhia pela ousadia, pela coerência entre discurso e prática. Quando o Marcelo e o Daniel me chamaram para conversar sobre a possibilidade de liderar a companhia, meu coração acelerou.”
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Nas primeiras semanas como CEO, Paula adotou uma estratégia que poucos executivos têm paciência para seguir: passou mais tempo ouvindo do que falando. Funcionários, professores, coordenadores, alunos – todos foram consultados antes que ela esboçasse qualquer plano estratégico.
“Me tornei a primeira mulher presidente da história da companhia e a primeira pessoa de fora dos fundadores”, diz Paula. “Levo essa marca com muita responsabilidade, mas, acima de tudo, com a certeza de que estou aqui para abrir portas e garantir que muitas outras também possam chegar.”
Essa filosofia de liderança vem de longe. Durante todos esses anos quebrando barreiras, Paula desenvolveu o que chama de “liderança afetiva” – uma combinação de competência técnica com sensibilidade emocional. “Nunca foi sobre cargo ou status, mas sobre transformar realidades.”
Para entender o que move Paula, é preciso conhecer Emma e Sara, suas duas filhas. “Elas me mostram, todos os dias, que o mundo está mudando rápido, e que a gente precisa liderar com mais escuta, mais empatia, mais coragem”, reflete a executiva.
É essa perspectiva de mãe que Paula traz para a Ânima. “A educação é a herança mais poderosa que recebi. Na minha casa sempre houve livros, conversas, estímulo. A educação me abriu portas que pareciam trancadas, me levou a lugares que minha família não conhecia.”
Agora, à frente de um ecossistema que inclui desde a tradicional HSM até a sofisticada Le Cordon Bleu, Paula tem a oportunidade de multiplicar essa experiência. “Quando olho pra Ânima, vejo não só uma instituição educacional, vejo uma potência de transformação.”
Liderar uma empresa listada na B3 já é desafio suficiente para qualquer executivo. Fazer isso sendo uma das poucas mulheres nessa posição no Brasil adiciona uma camada extra de responsabilidade. Paula sabe disso e não foge da discussão.
“Por onde passei, fui a primeira, mas garanti que não seria a última”, conta, referindo-se aos diversos cargos C-Level que ocupou ao longo da carreira. Na Ânima, pretende fazer o mesmo: usar sua posição para abrir caminhos para outras mulheres.
Mas Paula não quer ser lembrada apenas como “a primeira mulher CEO da Ânima”. Quer ser reconhecida pelos resultados que vai entregar. A companhia está em fase de retomada do crescimento, com foco no mercado B2B, educação executiva e formatos inovadores de ensino. É um momento que exige, ao mesmo tempo, ousadia para inovar e prudência para não comprometer a solidez construída ao longo dos anos.
“Meu papel aqui é garantir que a gente prepare pessoas pra um futuro que ainda nem existe, mas que vai exigir sensibilidade, ética, colaboração e inteligência emocional”, diz Paula, resumindo sua visão para a Ânima.
É uma perspectiva que combina a experiência internacional da executiva com sua sensibilidade de educadora por vocação. Autora do livro “O poder transformador do ESG”, Paula entende que a educação do século XXI precisa ir além da transmissão de conhecimento técnico.
“Educar, pra mim, é isso: construir pontes entre o que somos hoje e o que podemos ser amanhã”, reflete. “E é nesse caminho que eu quero seguir, com a alma aberta, os pés no chão e o coração comprometido com o coletivo.”
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