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Positivo Tecnologia

Por dentro da fábrica da Positivo em Manaus, Amazonas

São quase 9 horas da manhã quando entramos na planta industrial da Positivo Tecnologia em Manaus, Amazonas*. O calor amazônico lá fora contrasta com o ambiente climatizado da fábrica, onde linhas de montagem operam em ritmo constante. Aqui, a cerca de 3 mil quilômetros dos principais centros de consumo do país, nascem 4,3 milhões de […]

Publicado: 05/03/2026 às 10:23
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7 minutos
Fábrica da Positivo Tecnologia em Manaus, Amazonas. Imagem: Divulgação
Construção civil — Foto: Reprodução

São quase 9 horas da manhã quando entramos na planta industrial da Positivo Tecnologia em Manaus, Amazonas*. O calor amazônico lá fora contrasta com o ambiente climatizado da fábrica, onde linhas de montagem operam em ritmo constante. Aqui, a cerca de 3 mil quilômetros dos principais centros de consumo do país, nascem 4,3 milhões de dispositivos por ano: computadores, maquininhas de pagamento, tablets e componentes que vão parar em urnas eletrônicas e servidores de inteligência artificial.

Mas o que se vê nas duas unidades fabris de Manaus, que somam quase 42 mil metros quadrados, vai muito além de uma operação de montagem tradicional. A Positivo mantém três plantas industriais no Brasil: além de Manaus, que concentra 80% da produção, há fábricas em Ilhéus (BA) e Curitiba (PR). Juntas, essas operações sustentam uma estratégia de sobrevivência baseada em três pilares: diversificação radical de portfólio, verticalização da cadeia produtiva e formação interna de talentos. E a distância geográfica, longe de ser um problema, virou a principal razão para essa autonomia industrial.

“A Positivo consolidou uma diversificação que começou há muito tempo. Do ponto de vista industrial, isso amplia a visão. Atendemos diversos segmentos, diversos requisitos, pegamos o melhor de cada um e aumentamos a sinergia”, explica Edson Toffoli, diretor industrial da Positivo em Manaus, enquanto nos guia pelas linhas de produção.

Leia também: “Escolhi a tecnologia, porque era a profissão do futuro”, afirma Simone Okudi

Quando o mercado cortou pela metade

A conversa com Toffoli revela que a estratégia atual da companhia tem um marco temporal bem definido: a crise de 2016. Naquele ano, o mercado brasileiro de computadores encolheu pela metade praticamente da noite para o dia, justamente quando a Positivo estava transferindo sua produção para Manaus. A pergunta que a empresa precisou responder era urgente: como fazer uma companhia que vendia determinado volume vender metade disso em questão de meses?

A resposta veio na forma de novos mercados. A companhia ampliou drasticamente seu leque de atuação. Hoje, além dos computadores que a tornaram conhecida, a fábrica produz cerca de 800 mil de terminais de pagamento por ano. São aquelas maquininhas que você usa para pagar com cartão em praticamente qualquer loja do Brasil. A lista inclui ainda smartphones, tablets, componentes para urnas eletrônicas do TSE e, mais recentemente, servidores de alta performance para inteligência artificial. Enquanto isso, a unidade de serviços gerenciados de tecnologia da informação, a Positivo S+, já representa 16% da receita corporativa.

“Trabalhamos com segmentos com rentabilidades distintas, com flutuações distintas, com mercados mais estáveis e outros menos estáveis, e fazemos essa composição. A importância disso é a não dependência. É fundamental para que não tenhamos outra situação como a de 2016”, diz Toffoli.

Fabricar o que faz sentido fabricar

A poucos metros da linha principal de montagem, visitamos a Boreo Componentes, subsidiária dedicada exclusivamente à fabricação de componentes eletrônicos. Aqui, a verticalização da Positivo ganha forma concreta: mais de 10 milhões de placas-mãe, 6,5 milhões de baterias e 3 milhões de outros componentes por ano saem daqui, incluindo as placas e terminais para as urnas eletrônicas brasileiras.

Mas Toffoli faz questão de explicar que verticalização não significa fabricar tudo. É uma escolha estratégica. “Não se justifica abrir aqui uma fábrica de telas de cristal líquido, por exemplo, pois esses componentes têm fabricação totalmente automatizada, com máquinas caras que não abrem postos de emprego e não se aproveitam de nenhum incentivo fiscal”, explica o executivo.

“Para nós, faz muito mais sentido fabricar nossas placas-mãe. Importamos a placa de circuito impresso e componentes menores como portas USB e HDMI da China, mas todo o trabalho de montagem, soldagem e fabricação é feito aqui, por centenas de pessoas.”

A lógica é clara: verticalizar o que traz autonomia, conhecimento e empregos. Terceirizar o que já tem economia de escala estabelecida em outros lugares.

Os robôs que a Positivo construiu

Durante a visita, duas máquinas colaborativas chamam atenção. Elas executam tarefas de parafusamento e testes automatizados com precisão. Mas não foram comprados prontos da China ou de fornecedores especializados. Foram desenvolvidos internamente, do zero, pela própria equipe da Positivo em parceria com um instituto de tecnologia de Manaus.

“O equipamento que adquirimos da China requer um contrato de manutenção com terceiros. Com o equipamento desenvolvido aqui, o contrato de manutenção é conosco mesmo”, explica Toffoli. A vantagem vai além do custo. “Quando construímos do zero, quanto conhecimento conseguimos passar para as equipes? Qual é o nível de domínio do equipamento que desenvolvemos frente ao equipamento que compramos?”

É uma estratégia que casa desenvolvimento tecnológico com formação de pessoas.

Formar talentos locais

Um dos maiores desafios da indústria brasileira de tecnologia é encontrar profissionais qualificados. A Positivo decidiu não competir nessa corrida. Em vez de buscar talentos prontos no mercado, a empresa forma seus próprios especialistas.

“A estratégia para a tecnologia é a mesma para a formação de profissionais. Seguimos a esteira de trazer pessoas sem experiência. Todos os talentos precisam ser formados aqui dentro. Não buscamos no mercado pessoas com experiência do ponto de vista industrial. Queremos pessoas com disposição e vontade”, afirma Toffoli.

Os técnicos que hoje fazem manutenção nos robôs colaborativos nunca haviam visto equipamentos similares antes de entrarem na Positivo. “As pessoas que estão dando manutenção nunca tinham visto um robô. Agora estão aqui aprendendo. Estamos aprendendo juntos”, conta o executivo.

A empresa também conta com parcerias estratégicas. Institutos de pesquisa da região, incentivados pelos programas do Polo Industrial de Manaus, ajudam nos projetos mais complexos e contribuem para formar um ciclo de qualificação de profissionais.

A missão que guia tudo

Ao final da visita, quando já estamos de saída da fábrica, Toffoli conta qual é o segredo para a Positivo continuar relevante no segmento de notebooks acessíveis, especialmente quando concorrentes aproveitam momentos de transição tecnológica para elevar preços.

“Nossa missão é melhorar a vida das pessoas com o uso da tecnologia de maneira acessível. Se não for acessível, não estamos cumprindo a missão. Isso está tão enraizado que não sei se é um segredo. É realmente uma missão: todo mundo acorda todo dia sabendo que precisa ser acessível.”

É essa obsessão pela acessibilidade que explica a verticalização, o desenvolvimento interno de equipamentos, a formação de talentos e até a escolha de quais componentes fabricar. “Para sermos mais verticais, podemos tomar as decisões, podemos ser mais ágeis, podemos controlar a cadeia de suprimento. Tudo isso é direcionado para essa missão”, conclui o executivo.

Com mais de 60 milhões de dispositivos produzidos desde a fundação em 1989 e presença em mais de 5.500 municípios brasileiros, a Positivo Tecnologia prova que é possível manter a acessibilidade sem abrir mão da inovação. E que, às vezes, estar a 3 mil quilômetros dos grandes centros pode ser exatamente o que força uma empresa a se reinventar.

*A jornalista viajou a convite da Positivo

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