Há cerca de 2 anos, eu li estarrecido uma reportagem sobre um processo contra o Velox (provedora de internet banda larga no Rio de Janeiro) que responsabilizava a empresa por ter propagado vírus a seus clientes. Entre as vítimas estavam internautas incautos que abriram e-mails infectados, e navegaram em sites inseguros. O juiz aceitou a […]
Há cerca de 2 anos, eu li estarrecido uma reportagem sobre um processo contra o Velox (provedora de internet banda larga no Rio de Janeiro) que responsabilizava a empresa por ter propagado vírus a seus clientes. Entre as vítimas estavam internautas incautos que abriram e-mails infectados, e navegaram em sites inseguros. O juiz aceitou a causa e a operadora Velox foi chamada ao banco dos réus.
Não sei que fim levou essa história, mas não é difícil imaginar que a operadora tenha escapado ou feito um acordo, mas o que me espantou nesse episódio foi a falta de compreensão dos usuários e juizes de que a propagação de vírus não era responsabilidade da operadora, e sim mal uso pelos usuários. Foi assim que eu pensei na época.
Desde que comecei a escrever sobre informática oriento aos meus leitores e amigos a seguir algumas práticas preventivas para evitar esses males, que chamamos de vírus genericamente, mas podem ser também trojans, spywares, spams, e outros males eletrônicos que nos afligem. Sempre mantive o pensamento de que é uma responsabilidade do usuário se proteger, uma vez que as empresas operadoras e desenvolvedoras de aplicativos não tinham responsabilidade sobre o fato, e que os criadores de vírus são uma praga inevitável, e que deveríamos conviver com eles, etc, etc.
BASTA!!!
Nessa terça-feira li um artigo no jornal O GLOBO que me deu um estalo, revertendo completamente minha opinião.

O artigo falava sobre vírus para celulares, que já começaram a surgir nos EUA (embora tenha sido criado nas Filipinas) e que já tem 15 variantes e já foi detectado em 12 países. A tal praga (Cabir é o nome dela) tem potencial para afetar a vida de 1.5 bilhões de usuários no planeta, e se propaga tal como um vírus de e-mail, mas também se propaga “pelo ar”, num raio de 20 metros procurando aparelhos bluetooth que estejam na redondeza, enviando arquivos com o vírus para esses aparelhos. Os alvos são os sistemas operacionais Symbian, Windows Móbile e o da operadora japonesa DoCoMo. A Symbian já anunciou sistemas de segurança para a sua última versão, a Microsoft ainda está fazendo pesquisas (…) e a DoCoMo criou um programa de antivírus para seus assinantes. Mas isso resolve?
No mesmo artigo há um comentário sobre o novo vírus SymbOS.Skulls que destrói a bateria dos celulares Nokia 6600, 7600 e 7650, além de alguns aparelhos Sony Ericsson e Motorola.
Supondo que eu tenha um celular com sistema operacional Symbian, como eu faço o update? Quanto eu vou pagar para baixar o antivírus da DoCoMo (mesmo que seja gratuito, há o custo da ligação e há a preocupação o usuário em fazer o update) e quando eu vou ter meu Windows Móbile protegido?
E agora? Eu comprei um Motorola, será que minha bateria vai ser destruída? Se isso acontecer, com quem eu reclamo? Será que o custo da nova bateria será meu?
Caramba! Eu só queria um celular que ligasse e recebesse ligações…
Essas maravilhas tecnológicas estão infernizando nossas vidas. Tenho um amigo que me liga invariavelmente uma vez por semana reclamando de vírus ou de outras pragas que infectaram seu PC, tudo isso porque ele não tem uma rede com firewall em casa, afinal só tem um PC ligado diretamente ao modem da banda larga. Era só o que ele precisava, e ficou encantado com a propaganda na TV e assinou o pacote com provedor incluído mas nunca pensou que precisaria ser um administrador de rede para poder ter um PC protegido em casa. E ele usa o firewall nativo do Windows e o Norton Antivírus, como a grande maioria dos usuários, e já chegou a conclusão que o suporte do provedor não funciona nesses casos, porque os operadores sempre o induzem a acreditar que a culpa é dele mesmo.
Quem é o responsável por essas atrocidades? Nós usuários? Os criadores dessas pragas? Ou quem propaga os sinais e quem cria os sistemas operacionais falhos?

Vamos relembrar o episodio da indústria do fumo que foi penalizada nos EUA após dezenas de anos envenenando seus clientes. O conceito daquela ação é bem simples: a indústria de fumo causa câncer, doenças respiratórias e a morte de seus clientes usando técnicas químicas que estimulam o vício, e o Estado é obrigado a tratar desses pacientes em sua rede de saúde, custeada pelos contribuintes. Portanto se fez uma conta inversa de quanto custa cuidar da saúde de um fumante nos anos que ele ainda sobreviverá e a companhia de tabaco irá custear esse serviço. A ação, resolvida mediante acordo, custou a indústria de fumo dezenas de bilhões de dólares, mas permitiu que elas ainda continuassem operando e matando seus clientes dentro de algumas regras. O incrível é que com tantas restrições a publicidade e enormes custos judiciais, essa indústria ainda sobrevive no mundo todo.
Ninguém pode impedir um fumante de fumar, desde que ele tenha ciência dos riscos envolvidos, e essa foi a base legal para a ação já que até aquela data não havia na mídia ou nos maços de cigarros alertas sobre os danos que o fumo causa a seus usuários. Praticamente todos os países do mundo têm atualmente algum alerta nos produtos ou campanha contra fumo, até aqui no Brasil.
No caso dos vírus é a mesma coisa, qualquer usuário tem o direito de abrir e-mails suspeitos, de navegar sobre sites de conteúdo duvidoso, de usar um celular com tranqüilidade interagindo via bluetooth com outros aparelhos. Tudo isso é um direito assegurado desde que o usuáriocom o risco, e que seja alertado para o fato quando estiver prestes a cruzar a fronteira da segurança.
. Quero ter tranqüilidade. Se ocorrer um pico de luz e queimar minha geladeira, é só entrar com uma ação contra a companhia de energia que um dia (infelizmente nossa justiça não é rápida) recebemos a indenização. Esse fato é tão comum que quando há as tais falhas no serviço já há um advogado de plantão na CIA de energia para fechar os acordos, e são milhares deles a cada apagão.
Portanto eu quero um celular seguro, um serviço de banda larga seguro, um sistema operacional seguro e quero que os responsáveis por esses serviços mantenham os programas atualizados e seguros sem a minha interferência, afinal eu sou um usuário desses serviços, não quero tomar conhecimento do que está por trás em termos de hardware e software para que esse serviço me seja prestado (bom, na verdade eu particularmente tenho esse conhecimento, mas a maioria dos usuários não).
A única forma de nos proteger é punir judicialmente os responsáveis por esses serviços, tal como os “fornecedores das doses diárias de nicotina” foram nos EUA, pelos danos causados aos seus usuários. Pouco me importa se haverá um antivírus gratuito e automático no sistema operacional, se a operadora de celular terá que gastar milhões para implementar um filtro anti-pragas nos seus serviços de dados, ou se o provedor de internet que me fornece acesso terá que disponibilizar um sistema de antivírus eficiente e não intrusivo para que eu possa ler meus e-mails com tranqüilidade. Isso é problema deles, eu estou pagando por um serviço que deveria ser seguro.
Não dá mais para nós, usuários, sermos considerados os culpados pelos danos causados por essas pragas. Imagine se você é assinante de um canal de TV a cabo, e está com sua família na sala quando um sinal “pirata” entra em sua casa mostrando cenas inadequadas à sua família. Quem é o responsável? Você ou o provedor do sinal?
Em qualquer segmento há fornecedores e clientes, no caso da saúde há médicos e pacientes, e no caso das drogas ilícitas há distribuidores e usuários.