Desde cedo, Rafaela Rezende aprendeu a ouvir algo que muita gente costuma ignorar: o próprio instinto. Cresceu em uma família plural, cercada por referências fortes – o pai empreendedor, o tio Bernardinho, técnico da seleção brasileira de vôlei, o primo Bruninho, jogador da seleção, e outro tio advogado. Os caminhos pareciam traçados, prontos para serem […]
Desde cedo, Rafaela Rezende aprendeu a ouvir algo que muita gente costuma ignorar: o próprio instinto. Cresceu em uma família plural, cercada por referências fortes – o pai empreendedor, o tio Bernardinho, técnico da seleção brasileira de vôlei, o primo Bruninho, jogador da seleção, e outro tio advogado. Os caminhos pareciam traçados, prontos para serem seguidos. Mas ela preferiu trilhar o seu. “Não tenho talento para não ser feliz”, afirma com convicção. E talvez seja justamente essa escuta interna, essa coragem de se escolher, que define a trajetória de Rafa: firme, autêntica e feita à sua maneira.
Foi com essa mesma coragem que Rafa deixou seu primeiro estágio, conquistado por indicação do avô em uma empresa do setor químico. A experiência, no entanto, foi frustrante. Faltava propósito, entusiasmo, conexão. “Eu era a pior estagiária. Foi um horror”, relembra. A saída, embora difícil, marcou um ponto de virada. “Decidi que nunca mais dependeria de indicação. Queria conquistar meu espaço com base no que me faz feliz, no que faz meus olhos brilharem.”
Esse espaço veio na forma de uma vaga na Americanas.com, onde iniciou no setor de bebês e brinquedos. Foi ali que se apaixonou pelo varejo e se descobriu profissionalmente. “Fui da pior estagiária para a melhor. Quando me apaixono por um problema, eu realmente me diferencio.”
Enquanto colegas migravam para as teles seduzidos por salários maiores, Rafa escolheu ficar. Trabalhou sábados e feriados, cresceu, virou gerente ainda muito jovem e permaneceu oito anos na B2W, uma raridade no início dos anos 2000. “Sabia que aquilo me prepararia para algo maior.”
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E esse próximo passo veio com novos riscos. Mudar de cidade, sair da casa dos pais e encarar o desafio de construir o digital da Ricardo Eletro em São Paulo. Foi uma decisão transformadora, lembra. “Quando eu vou, eu vou. E qual o risco real? Sempre existe o caminho de volta.”
Hoje, à frente de uma posição de liderança na Vtex Brasil, Rafa carrega um equilíbrio raro entre vulnerabilidade e força. “Quando entrei, achei que seria demitida em seis meses. Pensei que me contrataram de forma equivocada. Mas também tenho uma clareza grande do meu caminho. Quanto mais eu falo sobre o que acredito, mais eu acredito também.”
Essa confiança construída com o tempo não apagou suas dúvidas, mas as transformou em combustível para crescer. Após dois anos na liderança, ela está novamente em um ciclo de reinvenção, revela. Não de cargo ou KPI, mas de identidade. “O que preciso evoluir para chegar a um novo nível profissional? Estou trabalhando fortemente minhas soft skills. Técnica é importante, mas as conversas difíceis, os relacionamentos e a influência exigem outra musculatura.”
Rafa sabe o impacto que causa. Por isso, decidiu escalar sua voz. Ao assumir a liderança na Vtex, foi bombardeada por pedidos de mentoria, cafés e conversas. Mãe, casada, com amigos e uma agenda intensa, sentiu o dilema: como ajudar sem se anular?
A resposta veio em forma de estrutura. Estabeleceu que faria três mentorias só com mulheres na Vtex, passou a priorizar painéis e palestras e lançou, em 2023, um palco de liderança feminina com executivas no Vtex Day, o maior evento da empresa para sua comunidade. Em 2024, o palco cresceu, virou uma arena com vozes femininas fortes. “Quis mostrar que há mulheres incríveis no mercado, com histórias tão potentes quanto as minhas.”
Além disso, implementou ações práticas de cultura: agenda aberta para que qualquer pessoa da Vtex veja seus compromissos, inclusive os com a filha, e o Friday Focus, tarde livre às sextas para que os colaboradores invistam em seu desenvolvimento pessoal. “Se for uma massagem, tudo bem. Se relaxar estimula sua criatividade, é isso que você precisa fazer. Eu respeito férias e faço questão de tirar as minhas. Se eu não conseguir descansar, estou falhando como líder.”
A Rafa que hoje inspira outras mulheres é a mesma que, aos 20, ouviu o próprio instinto e teve coragem de não seguir a manada. “Nunca troquei de emprego por dinheiro. Mudei porque deixava de fazer sentido para mim.” Ainda que se defina como uma pessoa segura, não esconde as vulnerabilidades. “Tenho medo, claro. Mas meu processo de decisão é simples: isso vai me fazer feliz?”
Ela conta que, antes do Vtex Day deste ano, ao ser convidada pelo fundador da vtex para entrevistar Viola Davis no palco do evento, chegou a declinar. “Depois pensei: vamos. No pior cenário, eu só vou sair melhor. Se for ruim, todo mundo esquece. Na próxima eu melhoro. O máximo que pode acontecer é eu aprender.”
Ela reconhece que o tempo e a paciência foram seus grandes aliados. “Não dá para construir uma história em um ano e meio. É preciso ter entregas, deixar um legado, criar vínculos, formar times.” E, se tivesse que aconselhar a Rafa de 20 anos atrás, diria: “Vai no seu tempo. Ouça seu instinto. Não apresse a história, porque boas histórias levam tempo para serem escritas.”
Hoje, além de continuar construindo a sua, ela ajuda a contar e abrir espaço para tantas outras. Sem romantizar, sem fingir equilíbrio onde há tensão, mas com a coragem crua de quem sabe onde quer chegar. Porque para a Rafa, o sucesso é consequência da paixão.
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