O mercado de ações americano (em inglês, Stock Market) é o mais perfeito do mundo, e “perfeição” nesse caso significa que os preços das ações refletem todas as informações disponíveis sobre a empresa e suas atividades. Uma vez que todas as informações estão disponíveis publicamente, é possível fazer previsões de faturamento, lucro, ganhos na participação […]
O mercado de ações americano (em inglês, Stock Market) é o mais perfeito do mundo, e “perfeição” nesse caso significa que os preços das ações refletem todas as informações disponíveis sobre a empresa e suas atividades. Uma vez que todas as informações estão disponíveis publicamente, é possível fazer previsões de faturamento, lucro, ganhos na participação do mercado, entre outras variáveis importantes e assim determinar o preço “justo” para uma ação hoje.
Dessa forma, todos os analistas de mercado fazem suas projeções e estimativas podendo considerar que tal ação está “barata” ou “cara” se o preço refletido no mercado for menor ou maior do que o justo calculado em cima das suas estimativas. E são baseadas nelas que surgem as recomendações de “buy” ou “sell” (compra ou venda) em vários níveis de prioridade, e baseadas nas estimativas realistas e públicas. É bom lembrar que qualquer operação com ações baseadas em “inside information” (informação interna, não pública) é crime federal e a punição é extremamente rígida. Martha Stewart que o diga.
Por volta do dia 10 de novembro de 2005, as ações da Intel e da AMD estavam coincidentemente no mesmo valor de 26 dólares por ação. Isso é apenas uma mera coincidência numérica, pois a quantidade de ações disponíveis para cada uma é bastante diferente. A Intel tem cerca de 15 vezes mais ações no mercado do que a AMD, o que em tese a torna 15 vezes mais valiosa se os preços das ações forem iguais. Eu memorizei esse valor porque lembro de ter comentado em um tópico exatamente isso, que o fato de estar igual seria mais fácil de acompanhar as futuras oscilações. No início do ano passado, em janeiro de 2005 a AMD estava cotada em $20.00 e logo nos primeiros dias caiu para cerca de $16, devido à divulgação de resultados negativos, enquanto que a Intel iniciou o ano em $ 24.50 e passou por janeiro sem grandes oscilações, mostrando que os analistas acertaram as estimativas de seus resultados naquele período.
Pois bem. Hoje as ações da AMD estão acima de $40 dólares e as da Intel estão valendo míseros $20 dólares, a metade do valor nominal da AMD e estão no nível mais baixo desde meados de 2003. O que aconteceu de novembro pra cá que motivou tamanha mudança no cenário dessas ações? Notem que estamos falando de apenas 3 meses, portanto não vamos começar a especular sobre produtos, tecnologias, ou fanatismo por uma ou outra marca pois nada disso mudou nos últimos 3 meses. O que mudou foram as expectativas futuras e principalmente o baixo resultado apresentado pela Intel, inferior ao esperado pelos analistas financeiros.
Mas antes de entrar nesses detalhes, vamos olhar com mais atenção alguns movimentos entre os demais fabricantes. A Apple cresceu no mercado de PCs, sua participação era de pouco abaixo de 2% e agora está pouco acima de 2%, isso para uma empresa que já teve 10% do mercado não é nada bom, mas mostra que o apelo de seus produtos continuam. Ouvimos falar muito da Apple em 2005, desde o vertiginoso crescimento de suas ações de $37 em janeiro para mais de $70 nos dias de hoje, muito disso por causa dos iPods, até o lançamento dos computadores baseados em chips Intel. Apesar disso tudo, sua participação no mercado cresceu apenas marginalmente embora tenha se tornado uma empresa muito lucrativa. Lucro, é isso que importa aos acionistas.
A VIA por sua vez cresceu 27% no mercado de x86, e cresceu 40% no mercado de desktops. Incrível, não?
Não muito, a participação da VIA é mínima, coisa de 1.5% do mercado total de PCs, mas o fato é que com esse crescimento ela passou a Apple no mercado de PCs, embora pouco tenha se falado disso na mídia especializada. O que eu quero mostrar pra vocês é que números não mentem, mas a forma como eles são apresentados podem gerar conclusões equivocadas.
Além da VIA e da Apple, a AMD também cresceu no mercado de desktops (se todo mundo está crescendo, quem está perdendo?) passando de 17.7% do mercado total (desktops, notebooks e servidores) para 21.4%, e o mais interessante, cresceu em todos os segmentos, e finalmente a empresa deu lucro em janeiro. A AMD é uma empresa que há anos apresentava resultados negativos, agora o caso se reverteu e tudo indica que vá permanecer assim por algum tempo. Os analistas gostaram, as ações subiram e tendem a permanecer nesse nível.
A Intel por sua vez não deu prejuízo, mas apresentou um lucro menor do que o esperado, e isso fez com que as previsões futuras se alterassem para baixo, depreciando o valor das ações. A possibilidade de um prejuízo operacional em função dos descontos comerciais que estão sendo praticados para manter a participação atual no mercado não está descartada.
Vamos olhar um pouco mais pra frente. Tudo indica que a nova geração de processadores da Intel será um sucesso comercial, mas os resultados financeiros dessa nova geração só vão aparecer no final de 2006 e inicio de 2007, até lá a companhia enfrenta problemas de suprimento devido entre outras coisas à utilização maciça de Dual Cores. Explico melhor: para fazer um processador de núcleo duplo é preciso usar dois núcleos bons (isso é meio óbvio, não é?) o que diminui pela metade a quantidade de processadores finais que um wafer é capaz de produzir. Além disso, os chipsets para placas mãe ocupam boa parte das linhas de produção da Intel, que estão trabalhando a toda carga para manter a produção total de processadores e chipsets no mesmo nível de antes, embora agora utilizem dois núcleos ao invés de um só.
A falta de chipsets causou um fato único, a Intel lançou uma placa mãe no ano passado utilizando um chipset da ATI . Os chipsets de baixo custo (e maior volume) estão sofrendo mais com a falta de suprimentos do que os de maior valor e tudo indica que a Intel deverá adotar parceiros (SiS, VIA, etc) para o fornecimento de produtos compatíveis em larga escala tal como já fez com a ATI. São os produtos de menor valor que atingem os maiores volumes em vendas totais, e garantem a participação no mercado total de cada empresa.
A tecnologia da AMD não é tão inovadora quanto à da nova geração da Intel, mas é extremamente eficiente e funcional, e o mais importante, está pronta e terá uma vida longa com as sucessivas modificações que estão sendo implementadas em seus núcleos. Por outro lado, a capacidade de fabricação reduzida vai limitar o crescimento da empresa no mercado, razão pela qual a AMD tende a subir o preço médio de seus produtos. Se não subir, pelo menos não irá reduzir na mesma proporção que antes. Isso já está acontecendo, especialmente na linha Opteron para servidores.
A Intel por sua vez ainda adota a tecnologia de um barramento frontal (FSB) que é menos eficiente do que o HyperTrasnport da AMD combinada com a controladora de memória integrada, mas tem seus defensores. Os problemas causados por essa arquitetura podem ser corrigidos com o uso de barramentos múltiplos (dois ou mais canais FSB, que vão requerer chipsets específicos) e o uso massivo de memória cache, como 2 ou 4 MB por núcleo. O problema é que com o advento dos sistemas de 64 bits, o cache de grande capacidade terá que ser ainda maior para lidar com a quantidade de dados necessária. Quanto maior o cache, maior o tamanho do die, e menor o rendimento de processadores por wafer. Problemas de produção novamente…
Olhando para o futuro, vejo a Intel reagindo a todos esses problemas com as recém anunciadas novas tecnologias, novos barramentos proprietários, e adotando a tecnologia de 45 nanômetros para 2007/2008. Mas dificilmente antes de 2008 essa estratégia resultará em uma ameaça séria para a AMD. Até lá, a contínua melhoria dos produtos da AMD darão uma sobrevida ao bem sucedido processador e certamente, apesar da limitada produção, manterão a empresa lucrativa e avançando em participação no mercado até pelo menos 30% do total. Leia mais sobre isso na minha coluna Uma oportunidade de ouro para a AMD .
Quanto às próximas notícias relevantes, a coisa anda feia para a Intel. As ações anti-truste promovidas pela AMD estão surtindo efeito entre os analistas financeiros e nos tradicionais clientes da Intel, há uma grande boa vontade desses em adotar os produtos da AMD em condições até muito boas para a empresa texana. Tudo indica que a DELL deve mesmo ter os produtos da AMD em suas linhas em algum momento esse ano, o que será mais um golpe duro no tradicional reduto da Intel. A AMD deve apresentar lucros operacionais no primeiro trimestre de 2006 (final de março) que podem animar os investidores ainda mais, enquanto que a Intel vem promovendo descontos e reduções agressivas de preços em seus produtos, não seria surpresa se o lucro declarado for muito baixo ou até negativo, o que jogaria os preços das ações a níveis ainda mais baixos.
É certo que haverá uma reação da líder, mas ela não virá em 2006 em termos de volumes, provavelmente nem 2007, talvez só em 2008 a liderança seja de novo incontestável. Mas até lá, tem muita areia pra virar silício…