Entrevista com o novo chairman do grupo, o romano Gabriele Galateri di Genola
Os acionistas da Telecom Itália podem até ter intuído,
mas o fato é que quando designaram como novo chairman do grupo, o romano
Gabriele Galateri di Genola, acertaram em cheio. Poucos executivos de
alto nível podem apresentar experiência igual em ambientes de mercados
financeiros do que Galateri. Ex-chairman do Mediobanca, ex-CEO e
ex-diretor financeiro da Fiat, ele começou sua carreira como diretor do
departamento de análises financeiras do Banco de Roma e logo depois
assumiu o escritório internacional de financiamentos da instituição.
Muito adequado para timonear a companhia neste oceano revolto
continuamente pela crise econômica que sacode o planeta desde meados do
ano passado.
Toda a sua abordagem passa pela eficiência e
rentabilidade. “Quem chega na frente não necessariamente é quem ganha
mais clientes”, analisa o italiano de 61 anos, disfarçando a origem na
fala tranqüila e firme, sem o calor tradicional de seus conterrâneos.
Gabriele Galateri também é firme ao esclarecer que as relações com a
Telefônica estão restritas ao conselho da Telco, onde a espanhola é
minoritária. Por sua vez a Telco detém 24,5% do capital da TI, sem
controle, especialmente nas operações de celulares no Brasil. Sobre o
País, apressa-se a declarar grande amor, reminiscente do tempo em que
trabalhou no bem-sucedido desembarque da Fiat com a construção da
fábrica de Betim, MG. Galateri concedeu esta entrevista exclusiva à
Gazeta Mercantil e ao Jornal do Brasil na sede da TIM no Rio de
Janeiro.
Gazeta Mercantil – O senhor assumiu uma grande
responsabilidade ao ser designado chairman da Telecom Itália há quase
um ano. Quais são as suas expectativas e desafios também como novo
presidente do board da TIM Brasil?
Antes de tudo eu preciso dizer que amo o Brasil. Tenho
vasta experiência aqui, há 30 anos eu era responsável no grupo Fiat
pelas operações financeiras nas Américas. Eu vinha muito ao Brasil.
Acompanhei a construção da fábrica de Betim (Minas Gerais), um
investimento muito grande. Essa história serviu-me como exemplo.
Assimilei ali o potencial do País, a capacidade e o entusiasmo das
pessoas. Estou muito feliz de voltar, pois este País é muito importante
para a Telecom Itália. O Brasil é responsável por 17% do total de
operações da TIM no mundo e 59% das operações internacionais da
companhia. O maior mercado da TIM está na Itália, depois vem o Brasil.
Temos presença em outros países da América Latina e Europa atendendo a
mais de 60 milhões de clientes. Mas definitivamente, o Brasil é o mais
importante na escala de investimentos externos da companhia. São cerca
de 10 mil funcionários diretos e mais de 37 mil indiretos. Investimos
nos últimos dez anos mais de R$ 19 bilhões e pretendemos colocar mais
R$ 7 bilhões nos próximos anos. Espero poder contribuir bastante para o
sucesso da empresa aqui e a gestão operacional da TIM Brasil fica a
cargo de Mario César Pereira de Araújo.
Gazeta Mercantil – A TIM enfrenta concorrência muito
acirrada. No mês passado, a Claro ganhou o 2 lugar. Como o senhor
pretende reverter esse quadro?
A TIM tem uma história de sucesso nesse ramo de negócios
e a vitória não é medida apenas por quem ganhou mais ou menos clientes,
mas sim pela eficiência do serviço prestado e a rentabilidade de suas
operações. Na minha opinião, o fato de existir mais concorrência não é
ruim, na Itália não é diferente. Sempre convivi em situações assim,
especialmente no setor de bancos. A concorrência faz uma companhia ser
eficiente. É um estímulo. Uma oportunidade para ser melhor. Temos que
ser capazes de oferecer o melhor serviço ao consumidor, esse deve ser o
objetivo de qualquer empresa. A TIM tem que ter isso em mente. O fato
de outras empresas estarem se aproximando de nós é um estímulo. Nós
trouxemos novas pessoas para a liderança e elas estão levando a empresa
para um novo patamar. Não tenho medo. Uma corrida sempre tem vários
vencedores. Quem vence não é aquele que apenas ganha market share. É
quem satisfaz o cliente em margens rentáveis.
Gazeta Mercantil – Há alguma possibilidade de a TIM se aproximar mais da Telefônica no Brasil com novas parcerias?
Este é um ponto muito importante para esclarecimentos. A
TIM está listada na bolsa brasileira e também na Itália. Para ambos os
mercados estão sendo desenvolvidas as melhores estratégias possíveis. A
Telefônica entrou no cenário quando da reestruturação societária da
Telecom Itália, processada em abril do ano passado. Foi criada a
holding Telco S.p.a. que detém 24,5% do capital da TI. A Telefônica
detém uma participação minoritária de 42,3% na Telco, enquanto
investidores italianos são majoritários com 57,7% dessas ações. Além
disso, o acordo de acionistas da Telco assegura a administração
autônoma e independente das atividades empresariais dos grupos Telecom
Itália e Telefônica. O acordo tem abrangência para todos os mercados
onde os dois conglomerados forem competidores, assim como no Brasil.
Por isso, os membros do conselho de Administração da TI que foram
indicados pela Telefônica são excluídos de qualquer discussão ou
votação relacionadas à TIM no Brasil. Assim posso garantir, ao
contrário do que às vezes é confundido pela imprensa, as operações
brasileiras são totalmente independentes da VIVO e da Telefônica.
Gazeta Mercantil – Como o senhor acha que a chegada do iPhone e a tecnologia 3G irão afetar as operações da TIM no Brasil?
Nós vendemos o iPhone na Itália e fomos os responsáveis
pela introdução do produto no mercado italiano. Também estamos
finalizando negociação com a Apple para vender o iPhone aqui no Brasil.
Queremos estar perto da tecnologia e o fato de não o vendermos ainda
não significa que desistimos e perdemos a corrida pela inovação. Essa
questão não me preocupa.
Gazeta Mercantil – Como o senhor enxerga a convergência de mídia e
comunicação? Telefones fixos, celulares, internet e televisão tudo será
uma coisa só?
Acho que este é um processo a longo prazo no mundo. Essas
discussões estão acontecendo no Brasil, na Itália, em todo o mundo.
Estive em diversas reuniões com instituições e autoridades, mas ainda
há muito para se entender como o mercado vai se comportar e como será a
regulamentação oficial. Mas não podemos perder de vista a busca de
eficiências em todos os segmentos. As autoridades brasileiras têm se
mostrado abertas para essas questões. Espero que esse processo seja
rápido.
Gazeta Mercantil – Nesse sentido a Telecom Itália considera fazer algum novo investimento no Brasil?
Você sabe o que está acontecendo no mundo, a crise que
está assolando os mercados financeiros espalha muitos temores nos
mercados. Mas a América do Sul e o Brasil ainda oferecem muitas
oportunidades. O Brasil gera enorme confiança para a Telecom Itália. É
um país com segurança institucional, as instituições são estáveis, a
prosperidade tem se consolidado com o crescimento da classe média e as
boas perspectivas da indústria do petróleo. As autoridades públicas têm
demonstrado grande capacidade de gestão…
Gazeta Mercantil – O senhor pensa em trazer para o Brasil alguma das operações que mantém na Itália, como Matrix e outras?
… Temos aplicações interessantes na Itália, como
serviços e produtos voltados para telemedicina ou segurança. Temos a
possibilidade de desenvolver algo semelhante no Brasil, mas ainda não
há nada definido. Outro produto interessante a explorar é a IpTV, mas
talvez seja um pouco cedo ainda.
Gazeta Mercantil – O senhor disse que acredita muito na
capacidade das autoridades brasileiras. Qual a extensão dessa crise e
quais são os impactos aqui?
Tem-se falado muito nisso e eu não sou um especialista,
mas posso fazer alguns comentários. Essa crise veio dos Estados Unidos,
basicamente por causa da especulação do mercado imobiliário que
apresenta uma contínua redução nos valores de ativos com repercussões
em todo o sistema financeiro. Eu gosto de ser otimista, mas hoje é
preciso ser realista. Não é possível imaginar que a Europa, a China e
também o Brasil vão ficar alheios ao problema. Acredito que o governo
está sendo capaz de manter a estabilidade econômica, mas certamente o
crescimento para o pró-ximo ano ficará num ritmo menor ou igual a 4%.
Gazeta Mercantil – A crise pode afetar diretamente as operações da TIM no Brasil?
É claro que a crise vai afetar a todos, mas o mercado
interno brasileiro que tanto se desenvolveu nos últimos anos é muito
forte e vai continuar exigindo investimentos em novas tecnologias e em
aprimoramento da eficiência. Nós estaremos atentos a isso.
Gazeta Mercantil – O senhor acha que o novo telefone
celular lançado pelo Google pode, assim como na internet, estabelecer
um novo padrão na telefonia móvel e representar uma ameaça?
Como eu disse, concorrentes precisam ser encarados por
nós como um estímulo. Mas uma boa amostra da nossa capacidade de
competir com inovação é o serviço TIM Casa que na residência ou
escritório, faz o celular funcionar como telefone fixo.