Motoristas parados em seus veículos sobrecarregam estações radiobase de telefonia celular; operadoras lutam para equilibrar cobertura
De uns meses para cá, os congestionamentos de automóveis nos horários de pico têm piorado em São Paulo, em parte devido ao aumento progressivo da frota de veículos. Como reflexo desse agravamento da falta de infra-estrutura da cidade versus o aumento das vendas de carros, as operadoras celulares têm sido objeto da insatisfação de usuários que não conseguem fazer ligações em meio ao trânsito.
Para ampliar a capacidade de completamento de chamadas, as gerências de engenharia das teles fazem correções de rumo como rotina semanal e mensal. “Não temos varinha mágica para definir quando e onde vai crescer o tráfego, por isso efetuamos medições constantes”, disse o vice-presidente de tecnologias e rede da Vivo, Javier Rodriguez.
Desde o projeto original de cobertura de uma área, um conjunto de estações radiobase é dimensionado para atender ao tráfego médio daquele setor geográfico.
Mas o processo é dinâmico, a cidade muda e é por isso que as teles têm de captar de forma contínua as condições do tráfego telefônico para ampliar aqui e ali a capacidade de recepção e transmissão de sinais das suas antenas.
Por conceito, as marginais dos rios Pinheiros e Tietê, pontos cruciais da Capital, onde os congestionamentos de carros e caminhões são freqüentes e quilométricos, contam com muito mais capacidade de completamento de chamadas telefônicas do que as ruas de uma pacata cidade do interior.
No entanto, se um caminhão tombar na pista de uma dessas vias de acesso, a fila de carros parados vai se alongar e as redes celulares do entorno ficarão sobrecarregadas, não permitindo que as pessoas presas dentro de seus carros possam usar seus celulares ao mesmo tempo.
“Uma situação atípica tem de contar com a compreensão de todo mundo, em São Paulo, Nova York ou Londres”, pondera o consultor de telecomunicações, Gilson Rondinelli. “É o mesmo que ocorre na rodovia que leva o paulistano ao litoral nos feriados de fim de ano”, compara. “Não seria viável construir uma estrada com dez pistas só para desafogar o êxodo do Reveillon.”
O também consultor e ex-presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Renato Guerreiro, fez uma análise semelhante. “Os sistemas probabilísticos contêm desequilíbrios eventuais. “A regra do projeto baseado em fluxos (de pessoas ou veículos) é atender ao movimento médio e não ao pico”.
Se uma rede celular fosse projetada para completar as ligações de 31 de dezembro, quando todo mundo quer desejar feliz ano novo a amigos e familiares, a ociosidade no resto do ano seria alta e motivaria custos elevados. “Todos os usuários teriam de compartilhar esses custos e as tarifas dobrariam”, afirmou Guerreiro.
Trânsito previsível
Como o trânsito em São Paulo é freqüente e não se vislumbra solução no curto prazo – as montadoras produzem e vendem cada vez mais carros – , é esperado que as operadoras móveis capacitem suas redes para dar atendimento a esses eventos praticamente diários.
Por isso os usuários paulistanos se perguntam se as teles têm procurado capacitar a rede para reduzir os congestionamentos.
Segundo o vice-presidente da fornecedora de equipamentos Nokia Siemens, Aluizio Byrro, os números do Capex (investimentos em equipamentos e redes) de todas as teles – Vivo, Claro, TIM, Oi e BrT – demonstram que elas alavancaram as quantias investidas em capacitação desde meados do ano passado. “Em 2007, os investimentos foram superiores a R$ 12,5 bilhões e este ano tendem a aumentar entre 15% e 20%, segundo estimativas da indústria”, disse Byrro. Esses números não incluem a compra de aparelhos celulares, sob a sigla Opex.
Atuação do órgão regulador
Segundo a assessoria da Anatel, as operadoras são obrigadas a cumprir metas de qualidade e completamento de chamadas. Medições são efetuadas nos horário de maior tráfego celular: entre 9 e 11 horas da manhã, 2 e 4 da tarde e 8 e 10 da noite. A exigência do órgão é 95% de completamento, com tolerância de 5% de falhas. Também existe uma medição de número de reclamações. No entanto, diante de um contingente de 127 milhões de usuários, o porcentual de reclamações toleradas (1%) também é elevado.
A gravidade do problema vivido em São Paulo não se estende a nenhuma outra cidade brasileira. Segundo o diretor de engenharia e operações da Brasil Telecom (BrT), Dirval Peres, “nem Porto Alegre nem Brasília nem Curitiba vivem uma situação caótica de trânsito como São Paulo”.
Peres informa que uma estação radiobase custa R$ 200 mil, em média, e que as teles não evitariam fazer um gasto desses porque o retorno é garantido.