Eu gosto de tecnologia, evidente, pois se não fosse assim não trabalharia na área, mas gosto também do lado econômico, do negócio propriamente dito, e especialmente analisar as estratégias das companhias do nosso segmento e comentar sobre os prováveis rumos dessas empresas. Gosto dessa área, e acho que muitos leitores também apesar de certo fanatismo […]
Eu gosto de tecnologia, evidente, pois se não fosse assim não trabalharia na área, mas gosto também do lado econômico, do negócio propriamente dito, e especialmente analisar as estratégias das companhias do nosso segmento e comentar sobre os prováveis rumos dessas empresas.
Gosto dessa área, e acho que muitos leitores também apesar de certo fanatismo que acaba se transformando em torcida irracional por uma marca ou outra. Vou procurar ser bem objetivo no que pretendo mostrar a vocês: uma ótima oportunidade para a AMD consolidar uma boa posição no mercado de processadores.

Apesar de uma certa flutuação nos primeiros três trimestres avaliados, o avanço da AMD no último trimestre do quadro acima é inegável. No quadro inferior, a presença da AMD nos PCs desktops (sem considerar notebooks e servidores) pela primeira vez atinge 20% do mercado mundial
Evidentemente para isso acontecer é preciso ter um bom produto, e isso a AMD tem e é inegável. Tanto o Sempron, quanto o Athlon64, o Opteron e também o Turion-nome dado ao antigo Athlon64 móbile – são ótimos processadores e estão conquistando seu espaço. Por outro lado, há problemas sérios com a reduzida produção, a ausência de uma estratégia mais coerente quanto aos chipsets e projetos de PC futuros. Diga-se de passagem, a AMD não vislumbra nenhuma mudança no futuro dos PCs e até o momento seus roadmaps apontam que o futuro será como é hoje, seguindo a linha clássica da busca pela maior potência bruta a cada geração de produtos.
Mas o problema mais grave está na imagem da empresa combinada com a estratégia de distribuição. A AMD tem uma imagem consolidada entre os consumidores do mundo todo como a “alternativa barata” aos processadores da Intel. Isso já não é tão verdadeiro assim, pois os preços subiram muito com os novos processadores. Mas a empresa ainda está em um distante segundo lugar em um segmento onde o líder ainda detém 80% do mercado mundial.
O Brasil é uma exceção, aqui a AMD vende muito bem entre os integradores “informais”. É o processador preferido entre os “montadores de máquinas” e tem algum sucesso entre os integradores formais, como Positivo, Preview e tantos outros. Ainda que no Brasil a participação da AMD no mercado total tenha o maior índice entre todos os paises do mundo, nem aqui a empresa é líder de mercado.
Falta justamente uma maior integração com o VAR-Value Added Reseller ou revendedor de valor agregado-nome que se dá ao integrador que desenvolve o produto final baseado em uma dada tecnologia para um dado segmento de mercado, e não simplesmente “monta” os PCs com componentes disponíveis no varejo. A relação entre o fabricante de um componente, no caso os processadores, e o fabricante do produto final é muito mais íntima do que uma simples relação de comprador e vendedor. E são os VARs os grandes responsáveis pelos imensos volumes de processadores vendidos no mundo, sem eles, a AMD está fora de qualquer participação mais significativa no mercado global.
Um dos VARs que é fácil citar é a Sun, que passou a adotar a AMD em suas linhas, outro é a HP que compartilha sua linha de produtos entre a Intel e a AMD. Ambas as empresas, se tiverem sucesso com os modelos AMD, serão as maiores responsáveis pelo posicionamento da marca texana no futuro.
Só que, e esse é o ponto curioso dessa história, para a AMD efetivamente conquistar os VARs e conseguir deles os volumes desejados, ela precisa investir (e muito) em marketing, em desenvolvimento de canais, em projetos de desenvolvimento junto aos VARs, em descontos comerciais muitas vezes lesivos a sua lucratividade e outras técnicas de mercado que são utilizadas em qualquer indústria de componentes. Em suma, a AMD precisará ficar cada vez mais parecida com a Intel…
E pelas últimas noticias, parece que esse é o caminho que a empresa vai adotar. Vale uma visita ao portal de parceiros e desenvolvedores da AMD, recém criado para suportar os VARs, e acompanhar as notícias sobre o licenciamento da fabricação do processador Geode X86 para a China, a recente queda nos preços de todos os processadores (* vale um comentário, a seguir) e a mudança de atitude da empresa, agora mais agressiva na comunicação com o mercado.
Os processos judiciais que a AMD está movendo contra a Intel, por práticas comerciais desleais é um claro indício que os tempos mudaram, mesmo que no final o processo em si não represente nenhum ganho significativo. Outro aspecto que tenho notado é a mudança sutil nas ações de marketing espontâneo.
Marketing espontâneo é aquela divulgação que uma empresa consegue sem investir, ou sem pagar por ela, ou seja, aparecer nos jornais e outras mídias “de graça”.Uma das técnicas utilizadas é fazer anúncios em conta gotas, fazendo que a cada semana surja uma notícia nova na mídia especializada. O anuncio da nova fábrica, por exemplo, rendeu mais noticias na mídia de economia do que nas mídias voltadas para o segmento de tecnologia. O recente anuncio da redução de preços foi feita em duas etapas, em dias distintos, uma só para uma parte dos processadores e outro anuncio só para a outra parte. Legal, assim aparece duas vezes nas manchetes…
Isso sem comentar com a grande repercussão de uma notícia que mostrava a AMD vencendo a Intel em um segmento muito especifico no mercado americano. Isso prova que, tal como é comum em toda indústria polarizada, que o segundo colocado goza de uma boa vontade por parte dos jornalistas e analistas do setor. Recentemente o grande guru John Dvorak publicou um polêmico artigo explicando porque uma empresa como a Apple aparece muito mais na mídia do que a Microsoft, apesar da imensa diferença de tamanho entre as duas. Simpatia, é o termo mais politicamente correto para esse fenômeno comum em vários segmentos, e se bem explorado é uma ferramenta interessante para conquistar um espaço no competitivo mercado global.
O fato mais relevante de tudo isso, e é o que torna o próximo ano uma oportunidade de ouro para a AMD, é que a Intel como toda grande corporação está reagindo de forma lenta, eu diria até “mastodôntica” aos avanços da AMD. Sim, nós sabemos todos os projetos da Intel para os próximos anos e eu acredito que ela terá sucesso nessa empreitada especialmente por ver um futuro no universo dos PCs bem diferente do que a AMD vê, porém os primeiros produtos da nova geração (vejam o artigo sobre o IDF 2005 ) só chegam ao mercado em quantidade na segunda metade de 2006. Um tempo longo demais para quem está perdendo terreno a cada trimestre.
A recente agressividade da AMD na mídia não é à toa. Seus executivos perceberam que têm cerca de 1 ano para conquistar uma fatia do mercado compatível com sua capacidade produtiva antes da reação da Intel efetivamente começar. Se o trabalho for bem feito, essa fatia ficará cativa por um bom tempo provando que a estratégia de avanço rápido sobre uma frente desprotegida pode garantir um território definitivo.
A Intel por sua vez enfrenta problemas com seus produtos transitórios entre a atual e a nova geração. Na linha do Pentium (Cedar Mill e Presler) e Celeron, nada de novo. O processo produtivo de 65 nanômetros não acrescentou novidades à linha de modelos que justificassem uma reação do mercado. Na linha de sevidores o Xeon “Paxville” decepcionou e isso era esperado, pois é um produto transitório. O Itanium que até agora conquistava mercados a passos largos entre os segmentos antes dominados pelos processadores RISC, sofre com atrasos no lançamento das novas versões e com a ameaça da Sun, agora renovada com os Opterons.
Alguns problemas na produção em larga escala de certos componentes, entre eles chipsets, fizeram que a Intel contratasse da ATI os chipsets necessários para alguns modelos de placas mãe de baixo custo. Sim, vocês entenderam bem, algumas placas mãe Intel com vídeo onboard são da ATI, agora.

A Intel® Desktop Board D101GGC, uma estranha no ninho com seu chipset ATI
A Intel foi lenta ao reagir, o que dá uma oportunidade única para a AMD nesse momento. Os processos produtivos de 65 nanômetros estão relativamente maduros, mas nesse momento não apresentam vantagens competitivas frente ao de 90 nanômetros que justificassem uma corrida ao domínio desse processo. Razão pela qual talvez a AMD tenha optado por manter os 90nm na sua recente Fab36, apostando na migração para 65 nanômetros só no final do ano que vem. Assim pelo menos há um aumento consistente na produção no curto prazo, que é o que interessa para capturar a oportunidade que se abriu no cenário atual.
Apesar de tudo isso, e mesmo com o lançamento do FX-60 e do Athlon 5000+ planejados para breve, a AMD ainda sofre com uma limitação na produção que, se tudo der certo, vai permitir um avanço de apenas uns 5% a 8% frente ao mercado da Intel. É pouco, mas tudo indica que essa fatia será conquistada de forma permanente, equilibrando um pouco a balança que hoje é desproporcionalmente favorável a Intel.