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von Neumann I: a criança prodígio

“Se as pessoas não acreditam que a matemática é simples é só porque não entendem o quão complicada é a vida” John von Neumann Eu leciono a disciplina “Arquitetura de Computadores” em uma grande instituição de ensino superior que, entre outras formas de avaliação, adota um conjunto de testes idênticos que são aplicados simultaneamente a […]

Publicado: 27/05/2026 às 06:45
Leitura
12 minutos
von Neumann I: a criança prodígio
Construção civil — Foto: Reprodução

Se as pessoas não acreditam que a matemática é simples é só porque não entendem o quão complicada é a vida” John von Neumann

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Eu leciono a disciplina “Arquitetura de Computadores” em uma grande instituição de ensino superior que, entre outras formas de avaliação, adota um conjunto de testes idênticos que são aplicados simultaneamente a todas as turmas em que a disciplina é ministrada, eventualmente por diferentes professores. O que propicia, entre outras coisas, que os responsáveis pela mesma disciplina nas diferentes turmas se mantenham aproximadamente em sincronia com o ritmo estabelecido pela ementa. Porém, em respeito à individualidade e peculiaridades de cada mestre, antes de serem liberados para os alunos, os testes são submetidos ao colegiado de professores para garantir sua coerência e homogeneidade.

Nesta altura dos acontecimentos já vejo alguns leitores dando de ombros com uma evidente expressão de “e daí?” no semblante.

Calma, que já explico. Pois acontece que uma das questões do mais recente teste indagava o que é “Arquitetura de von Neumann”. E a resposta proposta no gabarito não me agradou. Não que estivesse errada, naturalmente. Mas a achei incompleta. Para não parecer precipitado, antes de levantar a questão entre meus pares, decidi pesquisar o assunto na bibliografia fornecida aos alunos. E me surpreendi com o fato de encontrar, em cada uma das três principais fontes sugeridas, uma resposta ligeiramente (em um dos casos, bastante) diferente da opção que constava como correta no gabarito.

Resolvi então ampliar meu universo de pesquisa. E descobri duas coisas, ambas fascinantes.

A primeira é que, definitivamente, o assunto é controverso. Dependendo da fonte, o conceito do que vem a ser “Arquitetura de von Neumann” muda, com acepções mais ou menos parecidas, divergindo apenas em função da perspectiva através da qual o tema foi abordado pelo o autor.

A segunda foi a própria figura de von Neumann. Que, pobre de mim, sempre me pareceu importante no ramo da informática, porém pouco mais que isto. E quanto mais eu aprendia sobre ele, mais me convencia que se tratou de um daqueles poucos indivíduos que se pode classificar como “gênio” sem correr o menor risco de se equivocar.

Agora, podemos voltar ao “e daí”.

E daí que resolvi escrever sobre ele para compartilhar com vocês um pouco do fascínio que a personalidade de John von Neumann, nascido Neumann János Lajos (mais uma das coisas curiosas que aprendi pesquisando sobre ele: os húngaros grafam nomes exatamente na ordem inversa que nós, brasileiros, começando pelo nome de família herdado do pai, depois pelo da mãe e finalmente pelo nome próprio) em Budapeste, em 28 de dezembro de 1903.

Um homem suficientemente importante para que seu busto ornamente uma das paredes do prédio da Universidade de Oregon, como se vê na foto que encima este texto. Onde se pode perceber que ele há de ter se destacado no ramo das ciências matemáticas (e se você ainda não percebeu, preste mais atenção na gravata: seu prendedor é um ábaco).

Antes de prosseguir, porém, uma pequena digressão.

Sou um ávido leitor desde criança. Aos dez anos já tinha lido tudo o que Monteiro Lobato havia escrito para o público infantil à medida mesmo que ia escrevendo, pois ele ainda era vivo e eu lia cada livro assim que publicado (na verdade, tornei-me um admirador tão entusiasmado que, por ocasião de sua morte convenci minha mãe a levar-me ao funeral, pois na época morávamos em São Paulo). E continuei assim por toda a vida, lendo tudo que me caía nas mãos, de bula de remédio a compêndios de filosofia ? mesmo sem entender muita coisa do que lia.

Pois bem: lembro que, durante minha adolescência, dois personagens chamaram minha atenção. Um deles, Fróide, um cavalheiro do qual muito se falava e que, entre outras coisas, explicava quase tudo. Outro, Freud, um senhor sobre quem muito se escrevia e que, curiosamente, mantinha suas ideias em perfeita harmonia com as do primeiro. Foi apenas no final da adolescência, depois de muito ler sobre Freud e ouvir falar do Fróide, que constatei serem ambos a mesma pessoa. Minha confusão era devida exclusivamente a uma questão de pronúncia.

Então, se o que vem a seguir lhe impressionar o suficiente para que você ache que vale a pena comentar com alguém, por mais que eu escreva “von Neumann”, não se esqueça de se referir ao personagem como “fón Nóiman”, já que é (mais ou menos) assim que seu nome deve ser pronunciado.

E agora que estamos entendidos sobre isto, permita-me apresentar-lhe um dos grandes gênios da humanidade.

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